Rezadeiras: a fé que atravessa culturas e resiste a gerações

 

Dona Nair diz atender a quem chegar, não importa a hora. Foto: Cícero Oliveira – Agecom/UFRN

Durante gerações, antes mesmo da medicina científica se espalhar pelo interior do Brasil, as rezadeiras e rezadores ocuparam lugar central na vida comunitária. Com palavras ritmadas, gestos ritualizados e o auxílio de ramos de ervas, ofereciam alívio espiritual e um cuidado que misturava fé, tradição e saber empírico. Para muitos, a reza continua sendo o primeiro recurso diante de uma dor física ou de um mal-estar inexplicável. É nesse cruzamento entre crença popular e olhar acadêmico que esta reportagem se detém, ouvindo histórias contadas por quem vive a prática e por cientistas que também se dedicam a registrá-la.

A busca por uma rezadeira ocorria com frequência – e ainda ocorre em algumas regiões – para tratar problemas que a medicina convencional não reconhece ou não explica, como mau‑olhado, cobreiro, bolhas e coceiras na pele, ou a espinhela caída, descrita como um cansaço profundo com dores pelo corpo. A atuação dessas mulheres, porém, não se limita ao físico. Muitas eram procuradas também para aconselhar sobre dilemas pessoais e decisões importantes, assumindo um papel de referência espiritual e comunitária.

A principal forma de transmissão desse saber sempre foi a oralidade, passada de geração em geração. As poucas rezadeiras que persistem hoje aprenderam com mães, avós ou vizinhas mais velhas, em um processo de aprendizado que combina observação, prática e fé. Nair Batista de Azevedo, mais conhecida como Dona Nair, é uma delas. Com 90 anos, a rezadeira, espírita e mãe de santo, aprendeu o ofício com a avó. “Desde meus 10, 12 anos sentia que tinha esse dom. Aprendi vendo minha avó. Era algo tão forte que até minha mãe estranhava”, afirma.

Dona Nair conta que recebe todo tipo de pedido, desde a cura de alguma enfermidade até a localização de objetos perdidos, e que tais atendimentos não obedecem ao horário comercial. “A gente atende a qualquer hora, de manhã, de noite, não tem isso”, comenta. É no quintal de sua casa que a rezadeira recebe e inicia o ritual de benzer seus consulentes. “Antes de começar, rezamos, cantamos e agradecemos a Deus. Pergunto o nome da pessoa e começo a benzer-lá”, explica a curandeira.

A vitalidade presente no quintal de Dona Nair contrasta com uma realidade mais ampla. Ao longo dos anos, a sociedade deixou de valorizar esse tipo de saber, e a chama das benzedeiras ameaça se apagar. Antes presente em muitos lares, a prática agora corre o risco de sobreviver apenas como memória. O que está em risco não é apenas a perda de uma expressão de fé popular. Trata-se também do apagamento de um patrimônio cultural imaterial. Conhecidas como benzedeiras, curandeiras, raizeiras ou rezadeiras, essas presenças representam uma forma de resistência e de sabedoria popular que, mesmo sem diplomas, moldou a vida cotidiana de milhares de brasileiros.

Em 2025, o pesquisador e folclorista natalense Gutenberg Costa lançou o livro Rezadeiras do Rio Grande do Norte, que expõe, com três décadas de registros, a força e a fragilidade da tradição das rezadeiras no Estado. Suas observações mostram que essas curadoras, e alguns poucos homens, sustentam práticas de cura baseadas em fé, ervas e rituais transmitidos pela oralidade, atendendo crianças, adultos e até animais, sem cobrar pelo serviço.

O material revela ainda o peso do preconceito que recai sobre essas mulheres, quase sempre pobres e negras, e o risco de desaparecimento dessa prática popular, já que há baixa continuidade entre gerações, e muitas famílias apagam os vestígios do ofício após a morte das praticantes. Ao reunir histórias, rezas e saberes coletados ao longo de anos de viagens pelo interior, Gutenberg evidencia uma tradição que resiste, mas enfrenta um processo acelerado de erosão social e simbólica.

Matéria na íntegra no link https://www.ufrn.br/imprensa/reportagens-e-saberes/99388/rezadeiras

Paiva Rebouças, Laura Medeiros, Mariana Melo – Agecom/UFRN