Tecnologia, comunidade e o futuro do varejo em construção - Artigo de Marcelo Queiroz
O varejo despertou para a era em que máquinas pensam e lojas sentem. Essa é a principal lição trazida pela NRF 2026 – maior feira de varejo do mundo –, realizada entre 11 e 13 de janeiro, em Nova York. O comércio varejista deixou de ser apenas um espaço de transação. Ficou evidente que o setor se consolida como um organismo inteligente, sensorial e relacional — uma nova geografia formada por dados, experiências e comunidades. Essa mudança não é futurismo; é uma realidade construída por plataformas de inteligência artificial que decidem, ferramentas imersivas que ensinam e marcas que operam como verdadeiros ambientes integrados. Compartilho aqui alguns dos principais destaques desse importante evento.
Primeiro ponto: a inteligência artificial deixou de ser suporte para se tornar infraestrutura. Agentes capazes de compreender intenções, comparar opções e executar ações em nome do consumidor estão redefinindo o formato das vendas e operações. Isso amplia a eficiência e personalização, mas impõe obrigações inegociáveis, como transparência e governança de dados, e definição clara de responsabilidades. Sem esses pilares, a conveniência pode se transformar em risco à confiança.
Ao mesmo tempo, o espaço físico recupera relevância, reinventado como palco de encontro, experiência e aprendizado. As lojas não competem mais apenas por preço; disputam memórias e pertencimento. Vence quem transforma arquitetura, atendimento e merchandising em narrativas que convidam o cliente a permanecer e retornar, sendo uma oportunidade estratégica para o comércio local.
As interfaces imersivas, que proporcionam sensações de realidade mista, com óculos com display e experiências espaciais, tornam-se pontes entre saber e sentir. Na formação profissional, deixam de ser experimentação e passam a integrar ferramentas que ampliam a capacidade de treinar e certificar o aprendizado. E aí está o desafio das instituições em integrar camadas presenciais e digitais em capacitações alinhadas às demandas do mercado.
No mundo do trabalho, novas funções surgem, como gestão de agentes IA, curadoria de experiências e técnicos em XR (Realidade Estendida), enquanto tarefas rotineiras são automatizadas. Essa transição exige políticas consistentes de upskilling (desenvolvimento de novas competências dentro da mesma função ou carreira) e reconversão profissional que garantam inclusão. Capacitar sem excluir será a medida do sucesso.
A centralidade da comunidade e do conteúdo na construção das marcas também se intensifica. Consumidores mais jovens buscam pertencimento e autenticidade, preferindo ecossistemas que ofereçam diálogo e utilidade. As marcas, portanto, precisam pensar em cultura, não apenas em campanhas.
Para o Sistema Fecomércio RN, as implicações são concretas: modernizar currículos, promover projetos-piloto regionais, articular laboratórios de experimentação e estar atento ao diálogo público-privado sobre regulação e proteção de dados. Não basta acompanhar a tecnologia; é preciso traduzi-la em formação, inclusão e governança. Essa transição demanda liderança que uma visão técnica, sensibilidade social e compromisso público.
A NRF 2026 foi menos “futuro em construção” e mais “presente em execução”. É urgente entender que o varejo do futuro é inteligente, sensorial e humano. Cabe a nós governar essa mudança com pragmatismo e ambição, colocando a tecnologia a serviço da confiança e do desenvolvimento local.
Por Marcelo Queiroz
Presidente do Sistema Fecomércio RN

