22 de agosto, Dia do Folclore. - Tradição que une gerações

Folclore é o modelo de referência dos costumes e do modo de viver de um determinado povo em uma época

A cada dia, novas manifestações culturais surgem na sociedade. Algumas são passageiras, enquanto outras permanecem por um tempo no cotidiano de um povo em constante transformação que, por consequência, modifica a construção do seu próprio saber. Apesar dessa metamorfose contínua, adaptada às realidades sociais em que está inserida, a cultura popular possui uma essência que se perpetua entre as gerações. A essas manifestações mais puras dá-se o nome de folclore, caracterizado principalmente pela tradição, que garante a passagem dos costumes primeiros para a preservação da memória e identidade de um povo. Esse primeiro movimento da cultura é lembrado nesta quinta-feira, 22, quando se comemora o Dia do Folclore.
O folclore está presente nas músicas e danças, nas lendas e crenças, na literatura e no artesanato, entre outros produtos influenciados por essas práticas que tiveram início em décadas, séculos ou até milênios passados. A nomenclatura é originada do termo em inglês folklore, que significa sabedoria popular, cujos elementos começaram a ser estudados ainda no século 19. De acordo com o professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Luiz Carvalho de Assunção, a preocupação em investigar e conhecer o folclore surgiu no período da revolução industrial europeia, quando a sociedade passou por profundas mudanças em seu estilo de vida.
“A essência daquela cultura estava no mundo rural. Era lá que as pessoas mantinham certos costumes da tradição, sem modificá-la. Porém, com o crescimento das áreas urbanas, os intelectuais daquela época enxergaram a mudança em curso e acharam conveniente registrar os importantes elementos da cultura, antes que fossem extintos. Era no campo onde estava o primeiro modelo de formação do agrupamento humano e do modelo de sociedade. O mais simples e original, sem outros costumes absorvidos pela cidade”, explica o professor. O folclore é exatamente isso: o saber do povo permeado pela tradição, que se aprende e transmite oralmente para as novas gerações, a partir da vivência daqueles costumes.
Luiz Assunção observa que, embora ambos sejam ligados ao saber do povo, existe uma linha tênue que diferencia cultura popular e folclore. “A ideia da cultura popular é mais ampla do que o folclore, já que este aborda os aspectos da tradição no sentido do saber e do fazer, enquanto aquela tem relação com a identificação das pessoas dentro da estrutura da sociedade, na perspectiva de análise das relações de classe, ressaltada pela ideia de que o popular está relacionado a uma camada da população em condição de subalternidade. Há, portanto, uma conotação política no estudo dessa cultura”, define.
O antropólogo pontua que a dinamicidade da cultura também se aplica ao folclore, mesmo com o seu viés tradicional. Isso porque as transformações sociais interferem nas manifestações folclóricas, entre elas o Boi de Reis. Se antes acontecia no meio rural, como celebração à colheita, hoje em dia essa dança é realizada em um modelo de sociedade totalmente distinto, marcado pela era da informação, do espetáculo, da cultura ligada em rede. “O Boi de Reis atual não é o mesmo de 100 anos atrás. Ele vai se adequando e recebendo elementos de acordo com quem produz a cultura”, afirma. Do mesmo modo, o São João continua uma festa típica da região Nordeste, que ao longo do tempo recebeu nova roupagem. Nas tradicionais quadrilhas juninas, por exemplo, são inseridos elementos como dramatização e cenário.
Boi de Reis Pintadinho de São Gonçalo do Amarante, em apresentação na CIENTEC/UFRN

Tais mudanças não diminuem a importância do folclore para a sociedade, pois representa os elementos mais significativos da sua cultura e fortalece a identidade do povo. Essa memória, porém, corre o risco de extinção se não houver incentivo social e financeiro para os grupos folclóricos. Por esse motivo, Luiz Assunção defende a relevância do apoio governamental e da sociedade em geral, que precisa conhecer e valorizar mais a tradição cultural. “Os grupos de folclore estão inseridos nas camadas populares e geralmente não têm condições de manutenção. Como exemplo temos o grupo de dança Araruna, no bairro das Rocas, em Natal, que passa por dificuldades para se manter vivo. Caso as apresentações acabem de vez, não haverá mais o aprendizado das novas gerações e, assim, o movimento pode morrer”, alerta o professor. 
A resistência do folclore
O Rio Grande do Norte é referência no folclore brasileiro. Além da riqueza cultural preservada em muitas ações culturais do nosso povo, temos algumas referências significativas para o estudo deste tema. O principal deles, considerando seu pioneirismo em termos nacionais, é Luís da Câmara Cascudo (1898-1986). Autor de mais de 150 obras significativas para a pesquisa cultural e antropológica no Brasil, Cascudo escreveu sobre muitos temas, mas a maior parte de seus escritos se refere ao folclore. 
Desde a década de 1920, direcionou seu interesse na tradição dos contos, lendas e narrativas populares, muitas delas encontradas nos cordéis vendidos nas feiras. Já nessa época ele alertava para o perigo do desaparecimento das tradições folclóricas potiguares nos 30 anos seguintes. Em nível nacional, este alerta era feito, concomitantemente, pelo escritor Mário de Andrade (1893 – 1945). A sorte é que eles estavam errados, ao menos em parte. 
As manifestações resistem, segundo o ator e produtor cultural Rodrigo Bico, independentes do poder público. Em sua visão, o RN é um estado com uma cultura popular muito diversa que se traduz em seu território. Ele cita a Dança do Espontão, dos Negros do Rosário, em Parelhas, na região do Seridó, e os Caboclos de Major Sales, no Alto Oeste, que mantêm viva a tradição dos papangus na Semana Santa, como exemplos de resistência. “Nossas manifestações folclóricas têm em sua origem a mistura de matrizes africana, indígena e ibérica, que são as primeiras matrizes da formação do Brasil. Estão acontecendo, apesar das dificuldades, e resistem ao tempo e às gerações”, completou. 
O pesquisador potiguar Severino Vicente destaca que o RN tem matrizes culturais muito antigas, muitas delas oriundas da Idade Média, embora o nosso povo não tenha vivido esta época. Além disso, o estudioso afirma que somos o único estado do país a preservar os quatro grandes autos brasileiros: boi, fandango, chegança e congo. “Estas manifestações são encontradas em vários estados, mas só nós preservamos todas elas”, completa.


Preservação e difusão do folclore
O cuidado com a preservação e difusão do Folclore é uma prática constante na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Na Política Cultural da UFRN, de 2 de agosto de 2016, o capítulo destaca que é um dos objetivos da política cultural da instituição “reconhecer os saberes, conhecimentos e expressões tradicionais e os direitos de seus detentores, em âmbito da Universidade e da sociedade em geral”.
Mesmo antes de ser instituída a Política, o Grupo Parafolclórico da UFRN já atuava ressignificando as expressões populares religando-as ao saber acadêmico, à tradição e à modernidade. Dessa maneira, contribui para a difusão de conhecimentos na área do teatro e dança. A releitura das danças folclóricas é uma das vertentes de trabalho do grupo, que completou 28 anos de existência.
Segundo a coordenadora, professora Rita Luzia Santos, a iniciativa tem a proposta de valorizar e divulgar as danças folclóricas, em especial das regiões Norte e Nordeste. Composto por 25 participantes, o Grupo Parafolclórico é um projeto de extensão da UFRN que já montou 13 espetáculos. O último apresentado foi Ensaiei o meu samba o ano inteiro, com pesquisas sobre a origem do samba, que passa por suas ramificações, o lundu, samba de roda, samba de gafieira e samba de rua.
Atualmente, o grupo trabalha um novo projeto que abarca o sertanejo e tem como inspiração o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. No repertório, as danças que fazem parte da vida do sertanejo, como baião, forró, xaxado e aboio. “Nesse novo trabalho, nós pesquisamos sobre as danças ligadas ao sertanejo e as levamos ao palco em uma nova significação”, destaca a diretora artística do Grupo Parafolclórico, Rose Marie Medeiros.
Um pequeno trecho do espetáculo deve ser apresentado pela primeira vez na abertura do Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte (CBCE), no dia 16 de setembro, às 19h, no Ginásio da UFRN.
Grupo Parafolclórico da UFRN promove ressignificação das danças folclóricas nordestinas

Outra iniciativa que incentiva e difunde manifestações folclóricas na UFRN é o programa Chão de Saberes, criado em 2014 e incluído em 2015 no Plano de Cultura da instituição. Com isso, o programa foi ampliando e vem desenvolvendo ações em diversos municípios do Rio Grande do Norte, que buscam fortalecer a tradição folclórica.
“O Chão de Saberes tem buscado promover e reforçar o diálogo entre a Universidade e saberes acadêmicos e da tradição. Já desenvolvemos várias ações, como o cortejo cultural que aconteceu em maio de 2016 em Brejinho, envolvendo vários grupos de Boi de Reis, brincantes do município e de outras localidades próximas”, destacou a diretora do Núcleo de Artes e Cultura da UFRN (NAC), Teodora Alves.
Já participaram de ações do Chão de Saberes grupos como o Caboclinhos de Ceará Mirim, do mestre Severino Roberto, que dissemina a dança do folclore popular brasileiro com marcação rítmica, os movimentos e a fantasia, que tem fortes traços indígenas. O Programa levou também alunos do curso de dança da UFRN para uma aula de campo sobre práticas educativas em danças populares com o Mestre Geral do Coco de Zambê, na cidade de Tibau do Sul.
O grupo participou de um dos episódios do programa Cena Potiguar, da TVU, disponível neste link

Coco no Pé
O folclore também resiste fora dos muros da UFRN. Exemplo disso é o Coco no Pé, evento que acontece uma vez por mês, próximo ao Morro do Careca, em Natal. Uma conversa entre dois amigos que residem na Vila de Ponta Negra instigou a realização da primeira edição dessa vivência, idealizada por Ranah Dantas, 27 anos, e Elzo Silva, 37 anos, com o objetivo de divulgar e estimular os brincantes a se divertirem com o ritmo e divulgar a cultura regional.
O coco de roda é uma dança típica do Norte e Nordeste e teve origem no canto dos tiradores de coco e, somente depois, tornou-se um ritmo dançado. A dança folclórica apresenta uma coreografia básica: os participantes formam filas ou rodas onde executam o sapateado característico. 
Ranah Dantas explica que a ideia de promover encontros para brincar de coco de Roda veio para resgatar uma prática que já existia no Morro do Careca, em Ponta Negra, e estava um pouco esquecida. “Promovemos esses encontros para manter viva essa cultura e mobilizar a comunidade para dançar o coco”, disse. As vivências atraem tanto moradores da comunidade como também os que estão caminhando na praia. 
Cerca de 50 pessoas, em média, participam dos encontros em Ponta Negra, que acontecem uma vez ao mês, geralmente no terceiro domingo, por volta das 15h. A vivência completa em setembro cinco anos de realização, atraindo pessoas de todas as idades.

Leis sobre folclore
A data que comemora o Dia do Folclore, 22 de agosto, foi instituída em 1965 por meio do Decreto 56.747, do Governo Federal, com a proposta de “assegurar a mais ampla proteção às manifestações da criação popular, não só estimulado sua investigação - estudo, como ainda defendendo a sobrevivência dos seus folguedos e artes, como elo valioso da continuidade tradicional brasileira”.
Na ocasião, foi proposta uma Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro, a ser desenvolvida pelo Ministério da Educação e Cultura e a Comissão Nacional do Folclore do Instituto Brasileiro da Educação, Ciência e Cultura, a fim de celebrar e realçar a importância do folclore na formação cultural do país.
Também conhecido como Folguedo, Pastoril é uma manifestação folclórica do Nordeste

Antes disso, porém, já existia a preocupação em preservar e difundir o folclore brasileiro, com a criação da Carta do Folclore Brasileiro, aprovada no I Congresso Brasileiro de Folclore, realizado em 1951 no Rio de Janeiro. No VIII Congresso Brasileiro de Folclore, reunido em Salvador (Bahia) no ano de 1995, houve a releitura da Carta do Folclore Brasileiro, devido às transformações da sociedade brasileira e pelo progresso das Ciências Humanas e Sociais.
O documento conceitua Folclore como sendo o conjunto das criações culturais de uma comunidade, baseado nas suas tradições expressas individual ou coletivamente, representativo de sua identidade social. Na Carta, “constituem-se fatores de identificação da manifestação folclórica: aceitação coletiva, tradicionalidade, dinamicidade, funcionalidade”.
Apenas em 1986, o governador Radir Pereira instituiu o Dia do Folclore no Rio Grande do Norte, por meio do decreto 9.633. Este documento prevê a comemoração desta data nas escolas. O artigo 137 da Constituição do RN prevê ainda que escolas públicas incluam em seus currículos o estudo da cultura potiguar, compreendendo a literatura, artes-plásticas e o folclore.
O governo do RN mantém ativo o prêmio “registro do patrimônio vivo”, que confere um salário aos velhos mestres do folclore e outros valores para os grupos tradicionais se manterem vivos. Confira aqui a entrevista do programa Cena Potiguar com a mestre griô Odaiza Galvão, sobre a tradição do Auto do Boi de Reis.

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