ARTIGOS

Caridade Integral
Paiva Netto

Meditando sobre o imenso valor da Caridade, ressalto que não basta dar o pão material, que depois pelo corpo é lançado fora... Necessário se faz também atender às carências do Espírito, de modo que ele, mesmo quando reencarnado, descubra as extraordinárias qualidades que, como Templo do Deus Vivo, traz dentro de si próprio. Assim aprenderá a empregá-las com pleno conhecimento das Leis Divinas. E saberá livrar-se dos erros, cuja origem — para os que têm “olhos de ver e ouvidos de ouvir” — acha-se no campo espiritual. Espírito enfermo, matéria enferma. Mente perturbada, corpo afetado. A solução é psicossomática. Pensamento é força realmente. Escreveu Adelaide Coutinho (1905-1975 aprox.), pela psicografia do médium Francisco Cândido Xavier“Se não lapidarmos o coração, sobrevém, para nós, a tempestade. São os votos malcumpridos, as promessas olvidadas, as tarefas no abandono, os compromissos relegados ao esquecimento e a ânsia doentia de colher sem plantar e auferir lucros semesforços, na grande jornada da matéria, em que, juntos de nossos amigos e adversários, tanto poderíamos realizar em nosso próprio proveito”, completadas por estas de Emmanuel (Espírito): “O desânimo absorve-te o coração? Lembra-te de que o tédio é um insulto à fraternidade humana, porque a dor e a necessidade, a tristeza e a doença, a pobreza e a morte não se acham longe de ti”.
Eis por que a Legião da Boa Vontade não cuida somente do corpo, mas também do Espírito. De outra forma, há sempre o perigo de se promover a vagabundagem, coisa que absolutamente não fazemos. Como dizia o abade, poeta e tradutor francês Jacques Delille (1738-1813), “a Caridade que se faz por meio de esmola é uma forma de conservar a miséria”.
Que ninguém, todavia, se furte ao dever de ajudar. Amanhã poderá situar-se entre os suplicantes, necessitado urgente da esmola do que passa... “Hodie mihi, cras tibi.” (Hoje, eu; amanhã, você.)
Alimente-se, pois, o corpo combalido, mas que se lhe salve a Alma com o Evangelho e o Apocalipse de Jesus, em Espírito e Verdade, à luz do Novo Mandamento, de forma que o ser humano, conhecendo e vivendo as Leis de Deus, livre de sectarismos e fanatismos que tanto têm prejudicado as religiões no mundo, descubra que, sendo Templo do Deus Vivo, como ensinava Jesus, pode libertar-se da miséria. Descoberta a riqueza interior, a exterior, mais dia menos dia, surgirá. Analisando o trabalho de grandes pensadores, escreveu Henry Thomas (1886-1970) a respeito do filósofo e físico judeu-árabe Maimônides(1135-1204), conhecido como o Aristóteles da Idade Média: “(...) É especialmente famoso pelos seus Oito Degraus de Ouro da Caridade. Neste ensaio, expõe que há uma diferença entre dar e dar. Podeis dar com a mão, o pensamento e o coração. O primeiro e mais baixo degrau na escala da Caridade é dar com relutância. O segundo é dar insuficientemente. O terceiro é dar somente quando se é solicitado. E, assim por diante, até chegarmos ao oitavo degrau. Este é impedir a pobreza para evitar a necessidade da caridade. Este, conclui ele, é o mais alto degrau e o cume da escada de ouro da Caridade”.
Entretanto, não se deve restringir a Caridade ao louvável serviço da assistência material. Caridade é muito mais. Dirige-se ao Espírito do ser humano. Mesmo que os governos do mundo resolvessem toda a problemática social de seus povos, a Caridade seria necessária. Ela é, como prega a Religião de Deus, do Cristo e do Espírito Santo, Amor. Deus é Amor. Ninguém vive sem Ele, nem mesmo os Irmãos ateus...

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

paivanetto@lbv.org.br – www.boavontade.com


Ditadura política: além de fragilizar, governo exige interferência na proteção do trabalhador

Apesar de a Constituição proibir qualquer tipo de interferência do governo na luta sindical em defesa do trabalhador, conforme estabelece o artigo 8º, o governo Temer (PMDB) quer se apropriar da arrecadação e destinação de um valor que é por direito, único e exclusivamente dos trabalhadores.

Muito além de permitir a aprovação de uma lei que autoriza a precarização nas relações de trabalho, o governo ainda pretende abocanhar o financiamento que garante há décadas o avanço de direitos da classe trabalhadora. E o pior, o governo quer impor que uma lei seja soberana à Constituição, o que não é permitido.

Nesse processo, os trabalhadores, sem dúvida, são os maiores prejudicados, tanto pela clara desproteção quanto pelo efeito cascata que irá provocar o aumento da taxa de desemprego no País. Tamanha é a incoerência do discurso do governo em “modernizar a legislação trabalhista”, que a precarização das relações de trabalho iniciou no próprio serviço público, por meio do Programa de Desligamento Voluntário (PDV).

É a primeira vez na história do Brasil que a tirania de um governo massacra a proteção mínima de jornada, salário, igualdade de tratamento e garantia de trabalho digno. Em outras palavras, a sociedade está fadada a reexperimentar a realidade do século XIX.

Essa ditadura política, imposta pelo governo, gera profundo prejuízo ao trabalho histórico desenvolvido pelas entidades sindicais no âmbito da assistência social, administrativa e jurídica destinada aos trabalhadores e a seus familiares. Muito além de tentar fragilizar as entidades, o governo investe na morte da proteção aos trabalhadores.

Carlos Alberto Schmitt de Azevedo
Presidente da Confederação Nacional das Profissões Liberais


Teresa e dez moedas

Paiva Netto

O povo diz que pensamento é força. Está com a razão. De certa forma, repete o que ensinou Jesus no Evangelho, segundo Marcos, 9:23 e 11:24: “Tudo é possível àquele que crê. O que pedirdes na prece, crede que havereis de receber e vos será concedido”.    
É evidente que o Divino Professor não se referia a pedidos absurdos que alguns fazem e depois reclamam por não terem sido atendidos... Que quereriam?... Seja a nossa Fé Realizante sempre utilizada em favor do Bem, como no exemplo construtivo de Santa Teresa com as suas famosas dez moedas.
Malba Tahan, pseudônimo do famoso escritor e matemático brasileiro Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), conta, no seu livro Lendas do Céu e da Terra, o que, de memória, peço-lhes licença para transcrever aqui, porquanto é muito ilustrativo:

“Preparava-se Santa Teresa para partir em viagem. Uma das religiosas que com ela viviam perguntou-lhe o que ia fazer.
“— Fundar uma nova obra a serviço do Bem — respondeu a Santa.
“— E tens recursos para isso, levas algum dinheiro?
“— Dez moedas.
“— Ora, dez moedas! — exclamou atônita a religiosa. Isso é muito pouco! Que poderás fazer, Teresa, com dez moedas?
“— Sim — replicou a Santa —, tens razão, realmente. Teresa e dez moedas é muito pouco. Porém, Deus, Teresa e dez moedas é tudo”.

Resumidamente, esta é a história contada pelo saudoso professor Júlio César de Mello e Souza.
O mundo precisa de bons exemplos de trabalho, de realizações que a toda sua população, afinal, beneficiem, mas urgentemente necessita orar. Isso não faz mal nem deixa ninguém alienado, como alguns apressadamente ainda dizem por aí. É pura ignorância de questões vitais, que necessitam ser aclaradas. Enquanto o ser humano meridianamente não souber o que veio fazer neste planeta, continuará dando topadas pelos caminhos da vida, nesta e em outras dimensões.
Advertia Alziro Zarur (1914-1979), saudoso Fundador da LBV: “A invocação do nome de Deus, feita com o coração cheio de sinceridade, atrai o amparo dos Espíritos Superiores”(…)

José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

paivanetto@lbv.org.br – www.boavontade.com



Combater drogas e alcoolismo



Paiva Netto


É desde cedo que se aprende como é ingrato o destino que as drogas e o álcool apresentam às criaturas. As lamentáveis consequências saltam aos olhos de todos. Basta ver quantas vítimas no trânsito, a infelicidade no seio das famílias, os altíssimos custos que acarretam ao sistema de saúde. Apenas para citar o álcool, segundo o Ministério da Saúde, estima-se um número de dependentes entre 10% e 15% da população mundial.

As iniciativas que têm por finalidade tratar humanamente dos que caíram nessas armadilhas do vício ou cuidar da prevenção contra esses males merecem todo o apoio e incentivo. Combater o que faz mal às pessoas é também legítima caridade.

 


Lei seca mais rígida


É providencial a nova Lei Seca no Brasil que entrou em vigência em 2012. Segundo a assessoria de comunicação do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), são regras mais severas com o propósito de reduzir as mortes e os acidentes de trânsito provocados pelo consumo de álcool.

Em 13 de outubro de 2016, o Portal Brasil publicou novas regras para o cumprimento da Lei Seca. De acordo com o site, desde 1o de novembro, o condutor pego pela Operação Lei Seca dirigindo alcoolizado ou que se recusa a fazer o teste do bafômetro passou a pagar uma multa superior ao valor de R$ 1.915 cobrado anteriormente. “Devido a mudanças na legislação de trânsito, o valor subirá para R$ 2.934,70, e o motorista ainda terá a carteira de habilitação suspensa pelo prazo de 12 meses”.

Do respeito a essa Lei dependem vidas humanas. Quanto sofrimento poderá ser evitado!


José de Paiva Netto, jornalista, radialista e escritor.

paivanetto@lbv.org.brwww.boavontade.com



Política não deveria ser profissão. 

O Brasil vive um momento difícil e alguns (otimistas) esperam que os atuais homens públicos abram mão de seus interesses pessoais e passem a priorizar os interesses do Brasil. É evidente que os homens públicos vão continuar colocando seus interesses pessoais acima dos interesses do Brasil. É evidente também que acima de todos os interesses pessoais, reina o desejo do alpinismo político.
Quase a totalidade de nossos políticos, sejam eles vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores, norteiam seus atos pelo impacto que esta ou aquela medida terá em seu projeto pessoal. Somente a inelegibilidade automática é capaz de eliminar definitivamente com essa indesejável distorção de conceito e de percepção do papel na democracia de um representante público.
Os poderes Legislativo e Executivo estariam muito melhor sem a presença nefasta de profissionais da representação pública comumente chamados de políticos. Está na hora dos meios de comunicação ajudarem na busca de uma solução definitiva desta situação crítica que vive a política brasileira. Está na hora de promover uma fórmula que resulte na limpeza geral (e constante) dos homens públicos que ocupam os cargos de deputados, senadores, vereadores, prefeitos e governadores.
Se alguém chamar isso de revolução moralizadora estará escolhendo o nome correto. Se alguém chamar isso de revolução devastadora terá entendido totalmente a abrangência da proposta. Se alguém, no entanto, chamar a inelegibilidade automática de punitiva estará avaliando de forma errada, pois o que se pretende não é punir nossos representantes, somente criar um sistema que inviabilize o surgimento de políticos profissionais.
Se possível, entre em contato conosco pelo site www.IRN.org.br, pelo e-mail iresnovae@hotmail.com ou redes sociais como Instituto Res Novae para que possamos difundir essa ideia com a ajuda de vocês.

Política não deveria ser profissão. 

Breno Barison
iresnovae@hotmail.com



Salvemos nossas crianças
Paiva Netto

            Jesus, no Seu Evangelho, consoante Mateus, 24:15 e 16, alertou: “Quando, pois, virdes a abominação da desolação, de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê entenda! — qui legit, intelligat), então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes”.
Que lugar mais santo no mundo pode existir além da intimidade das criaturas de Deus, o coração, o cérebro, a Alma das pessoas?
           Atentemos para a covardia e crueldade contra nossas crianças que, quando não são arrancadas do útero materno, sofrem todo tipo de agressão física e/ou psicológica por parte daqueles que deveriam protegê-las. Tudo isso nos leva a pensar que já vivemos a época anunciada pelo Divino Mestre. Nunca como agora a abominação desoladora atacou tanto o ser humano. É palmar “fugir para os montes”, do pensamento e da compaixão, ou seja, para que do mais alto vigiemos melhor o “lugar santo”.
             Num planeta que se arma até os dentes, mesmo parecendo que não, tendo a deusa morte como grande inspiradora, os locais seguros vão se reduzindo em velocidade descomunal. Mas existe um oásis que se deve fortalecer, porque é o abrigo das futuras gerações: o coração dos pais, em especial, o das mães. É nesse acolhedor ambiente que os pequeninos moldarão os seus caracteres. Daí terão ou não respeito ao semelhante, saberão ou não discernir o certo do errado, portanto, construirão ou não um mundo mais feliz.
              O emblemático episódio, há alguns anos, envolvendo pessoa aparentemente “acima de qualquer suspeita”, guardiã da lei, que, segundo a perícia médica, impôs maus-tratos à filha adotiva, de apenas 2 anos, e tantos outros noticiados pela mídia são de estarrecer. Jogam por terra a ideia de que a violência doméstica está somente ligada à desarmonia familiar, às dificuldades financeiras, a problemas com drogas, a exemplo do álcool. Fica patente o grave desequilíbrio emocional presente nas esferas das relações humanas. Urge, pois, por significativa parcela da Humanidade, acurado exame de consciência.
            Por que permitimos que a situação chegue a esse ponto? Valores como família, dignidade, fé e Espiritualidade precisam sobrepor-se à cultura do consumismo desenfreado, à frieza de sentimentos, à falta de caridade e à ganância desmedida.

Reflexões da Alma            Não somos palmatória do mundo, mas gostaríamos de colaborar na busca de respostas a essas inquietantes indagações. No meu livro Reflexões da Alma (2003), pondero:
            O mundo fatiga-se com demasia de palavras e pobreza de ações eficazes, atos que de forma efetiva sirvam de modelo para a concretização de um espírito de concórdia, de Boa Vontade, que verdadeiramente transforme o indivíduo de dentro para fora, coisa que não se consegue por decreto. É evidente que esse trabalho espiritual e humano de iluminação das criaturas deve ser acompanhado por acertadas medidas políticas, econômicas e sociais; Instrução; Educação; e a indispensável Espiritualidade Ecumênica. Isto é, uma perfeita sintonia com as Dimensões Superiores da Humanidade Celeste, até agora invisíveis aos nossos olhos materiais.
            O estágio de fragilidade moral do mundo é tão avançado, apesar dos progressos atingidos, que, para acabar com a violência, só existe uma medicina forte: a da escalada da Fraternidade Solidária, aliada à Justiça, na Educação. Por isso, ecumenicamente espiritualizar o ensino é um poderoso antídoto contra a agressividade. Por falar na “Senhora de Olhos Vendados”, aqui um ilustrativo pensamento do ensaísta francês Luc de Clapiers, Marquês de Vauvenargues (1715-1747): “Não pode ser justo quem não é humano”. Por conseguinte, também não é possível ser feliz.

Jesus e as mães            A professora Adriane Schirmer, de São Paulo/SP, enviou-me e-mail no qual destaca meu artigo “Jesus e as Mães”: “O que dizer de tão comovida prece? Numa sociedade em que o Dia das Mães é direcionado às vendas, o senhor não se esquece nem daquelas que já estão no mundo espiritual, zelando, com certeza, pelos que aqui ficaram”.
            Grato, professora Adriane. A maternidade é um sol que não se apaga.

José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.


O patrimônio da Caridade
Paiva Netto


A Caridade é o conforto de Deus para as Almas e o relacionamento cordial entre criaturas que firmemente desejam a preservação deste mundo. Ela é uma função espiritual e social, não apenas um ato particular de socorrer apressadamente o mais próximo. É uma política dignificante, um planejamento humanitário, uma estratégia, uma logística de Deus, entendido como Amor — “Deus é Amor” (Primeira Epístola de João, 4:8) —, a nós oferecida, de modo que haja sobreviventes à cupidez humana. A Caridade é a Força Divina que nos mantém de pé. Sabemos, e basta ir ao dicionário, que Caridade é sinônimo de Amor. Portanto, é respeito, solidariedade, companheirismo, cidadania sem ferocidades. O mundo precisa de carinho e Amor. Quem diz que não quer ser amado está doente ou mentindo, o que, no fundo, no caso em questão, é a mesma coisa. Pode ter certeza de que a pessoa está gritando lá dentro: “Socorro! Preciso ser amado! ou, preciso ser amada! Mas não tenho coragem de dizer! Tenho vergonha de reivindicar, um pouco que seja, da Fraternidade dos meus irmãos humanos! Mas escutem o meu apelo desesperado e silencioso!”.

Como escrevi em Como Vencer o Sofrimento (2002), o Amor revela a Luz, e a Luz espanta a treva. Que mais quereremos nós? O ser humano tem carência de Amor verdadeiro. É o que muitos dirigentes dos povos em definitivo precisam entender. Governa bem aquele que governa o coração. Exclamam alguns: “— Ah, eu não falo em Caridade!”. Infelizmente creem que ela se resume em dar às pressas esmola ao mendicante que os interpela. Já estão em falta quando se irritam diante do necessitado, que em geral é efeito e não causa. Devem refletir sobre este ditado latino: “Hodie mihi; cras, tibi”. (Hoje, eu; amanhã, você). Ou seja: agora, o pedinte é ele; amanhã, poderemos ser nós. O pior é que alguns transferem essa “amofinação” para um sentimento elevadíssimo, que é a Caridade, que eles não entendem muito bem, mas que se personifica na cola que junta as partes separadas da sociedade mundial. Enfim, Caridade é a esperança que repousa em Deus.

José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.paivanetto@lbv.org.br — www.boavontade.com

Vítimas inocentes
Paiva Netto

O Dia Internacional das Crianças Inocentes Vítimas de Agressão (4 de junho), instituído pelas Nações Unidas em 19 de agosto de 1982, teve inicialmente o propósito de chamar a atenção para o drama dos milhões de pequeninos que sofrem os efeitos da guerra, muita vez perdendo suas vidas.
Os cidadãos de bem, em toda parte, não podem ficar surdos aos gritos de dor desses inocentes. Trata-se de patrimônio humano, garantia de futuro — que desejamos mais feliz — da civilização.
Mas o despertar da sociedade deve abranger igualmente as crianças que padecem de agressão nos próprios lares, nas escolas, nas ruas, mesmo em países não considerados campos de guerra declarada, e as sacrificadas pelo horrendo tráfico de órgãos, ou, ainda antes de nascerem, pelo procedimento criminoso do aborto.
O psicólogo dr. Pedro Lagatta, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV/USP), em entrevista ao programa Viver é Melhor, da Boa Vontade TV (Oi TV — Canal 212 — e Net Brasil/Claro TV — Canal 196), expôs aos telespectadores várias faces da violência que acomete as crianças, sejam elas físicas ou emocionais; incluídos aí o execrável abuso sexual e o perverso bullying. Tudo isso com consequências dolorosas e duradouras.
Trago-lhes hoje esclarecimento importante do dr. Lagatta, em que ele procura estabelecer um diferencial em torno da polêmica e famosa palmada, ainda em uso por muitos pais na educação dos filhos. "Palmada é um termo bem ruim; é um eufemismo que tenta de alguma maneira esconder o que acontece realmente nas casas. Quando a gente fala que as crianças apanham de chinelo e objetos duros, o que acontece é um sistemático espancamento. Palmada parece que os pais só vão lá e dão umas palmadinhas para fazer a criança parar de chorar, mas muitas vezes não se trata disso, se trata da autorização para a violência, uma violência séria".
O tema merece de pais e educadores vigilância constante quanto aos limites que devem ser absolutamente respeitados. Corrigir não significa agredir. É o que defende a Pedagogia do Afeto, que desenvolvemos na rede de ensino da LBV.
A sabedoria popular ilustra bem ao comparar as crianças com a argila, pronta para ser moldada. Ora, os melhores jarros, as mais belas cerâmicas carecem de cuidados específicos em sua confecção. Se o oleiro não souber unir disciplina e carinho, o trabalho apresentará defeitos indesejáveis.

José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.paivanetto@lbv.org.br — www.boavontade.com


Violência sexual contra meninas: uma situação endêmica no Brasil


Por Oscar Alejandro Fabian D Ambrosio - ACI


Primeiramente é importante destacar que há pouco debate sobre o quadro extremo de violência contra as mulheres - que tem características bastante diferentes daquelas praticadas contra os homens –  na grande mídia e espaços políticos representativos, resultando na pouca proposição de leis eficazes que visem a extinção completa da violência contra a mulher. Inversamente, observa-se perspectivas midiáticas que, muitas vezes, estimulam e espetacularizam situações de violência, além de projetos de lei e debates políticos que igualmente incentivam a não-extinção dessas violências. Um deles é a proposta de proibição do debate sobre temas relativos à gênero nas escolas. Sendo a construção social do gênero resultado da dominação e exploração das mulheres nos últimos milênios, promovendo inclusive a autorização social para que mulheres sejam violentadas, é inadmissível propor as escolas a não produção de conteúdo crítico sobre esse tema. É inadmissível que se aparelhe escolas com valores que promovam a manutenção da violência. Escolas são espaços de aprendizado, reflexão e formação de cidadania, sendo seu dever debater esses e outros assuntos para que cidadãos e cidadãs sejam formados e habilidades para um pensamento crítico sejam desenvolvidas. Violência, Sociedade, Capitalismo, Política, História, Economia, Racismo, Meio Ambiente, Patriarcado, são conceitos que devem ser amplamente debatidos para que possamos, juntos, construir um mundo onde a paz, a democracia e o bem estar sejam realidades palpáveis para todos, geradas através de reflexão, debate e consciência.

A realidade sobre violência – sendo o conceito de “violência” estreitamente relacionado com o de “gênero - no Brasil traz o seguinte dado: anualmente no país, 500 mil pessoas são estupradas, sendo a grande maioria do sexo feminino e a metade, crianças, O número de estupro e e moradia forçada de homens adultos contra meninas, denominado “casamento infantil” é altíssimo no país, assim como são altos os números de estupros pagos contra meninas, denominado “prostituição infantil”. O tema é abordado por Natacha Orestes, escritora e pesquisadora da área. Segundo a autora:

"O casamento infantil é um tipo de exploração sexual que não é socialmente percebida como tal. Embora o sexo com pessoas menores de catorze anos seja considerado estupro de vulnerável, de acordo com a lei, 66 mil crianças entre dez e catorze anos estão em situação de casamento no território nacional. Isso acontece devido a uma brecha na legislação: o casamento é permitido a partir dos 16 anos com consentimento dos pais, mas, se a adolescente for do sexo feminino e estiver grávida, o homem que a engravidou tem o direito de tomá-la como esposa. No caso de meninas menores de catorze anos, isso quer dizer que é concedido ao estuprador o direito de exercer a paternidade em detrimento do direito da menina de não conviver com seu violador ou de abortar o feto gerado a partir do estupro."

Um dos dados que chama a atenção no contexto das violências sexuais praticadas contra meninas é que a esmagadora maioria dos agressores são homens e são adultos. A maioria é também composta por pessoas próximas à criança, fazendo parte da família ou do círculos de amigos.

"Segundo estatísticas, pais e padrastos representam a maior parte dos estupradores de vulnerável no território nacional enquanto que o fundamentalismo religioso, que representa um dos pilares do patriarcado, ergue palanques em espaços políticos para a realização de um lobby homofóbico que afirma ser a homossexualidade a causa da pedofilia, como se fossem as lésbicas e os gays os responsáveis pela corrupção de menores no Brasil e não pais e padrastos. É uma inversão milenar, uma tentativa de ocultar o sujeito perpetrador dos estupros de vulnerável, responsabilizando uma parcela da população que já é perseguida por não ser heterossexual, por não fazer o sexo considerado correto por algumas morais religiosas, o sexo reprodutivo. Teorias norte-americanas de cunho pedófilo escritas por Richard Gardner afirmam que a pedofilia é natural e normal para o sexo masculino. Além disso, essas teorias também afirmam que a pedofilia é positiva para a sobrevivência da espécie humana, servindo para fins de procriação. É importante perceber que a pedofilia tem sido utilizada institucionalmente com a finalidade de promover a manutenção do direito masculino de controlar os direitos sexuais das mulheres, começando pelas mais vulneráveis, as meninas. O lobby homofóbico e lesbofóbico tem como objetivo atacar sexualidades que colocam em risco a supremacia masculina e o direito dos homens sobre os corpos do sexo feminino, responsabilizando a comunidade LGBT pelos crimes cometidos por instituições heterossexuais."

A realidade de extrema violência praticada por homens adultos contra crianças do sexo feminino é chocante. Porém, que ações estão sendo realizadas para que essas violências sejam eliminadas por completo? Até quando crianças terão que conviver diariamente com estupros e violências ? Por que esse contexto é tolerado no Brasil? De acordo com resoluções da ONU, devem ser adotadas por todos os países, medidas que visem o fim do estupro e moradia forçada de homens adultos com crianças do sexo feminino (“casamento infantil”). Porém, como o Brasil tem se comportado frente a essa decisão internacional? Orestes complementa:

"As teorias de cunho pedófilo do escritor Richard Gardner foram traduzidas para a língua portuguesa e disseminadas entre juristas, magistrados, advogados e estudantes de direito. A estratégia dos estupradores de crianças é se passar por protetores da infância e ganhar a confiança da sociedade. É a mesma estratégia através da qual atuam para cometer seus crimes. Pedófilos se aproximam de crianças vulneráveis e ganham a confiança de todo o círculo social das vítimas. Esse processo é conhecido internacionalmente como grooming, tática que, na Malásia, se tornará crime em breve, mas, aqui no Brasil não é sequer discutida. Um dos objetivos existentes nas estratégias utilizadas por estupradores – em especial estupradores de crianças – é se manterem impunes. É preciso avançar nesse debate. Atualmente temos um projeto de lei, PL4488, cujo objetivo é encarcerar mães que denunciam pais que estupraram seus filhos. É a criminalização da maternidade protetiva. A separação de mães e filhos foi e ainda é uma tática nazista. Estamos diante de uma barbaridade, mães têm perdido a guarda de seus filhos e acusadas de serem loucas e histéricas, ao mesmo tempo que as crianças são dadas de mãos beijadas aos seus algozes. Se a sociedade civil não se engajar contra isso, o número de casamentos infantis entre pais e filhas só aumentará."

E então, Brasil?

Daniela Alvares Beskow. Escritora e bailarina. Bacharel e licenciada em Ciências Políticas (Unicamp) e bacharel em Comunicação das Artes do Corpo(PUC-SP). Mestranda em Artes Cênicas (Unesp - SP).

Na fronteira da genialidade e da loucura: Lima Barreto

Por Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite

“Nãolimabarreto é só a morte que iguala a gente. O crime, a doença e a loucura também acabam com as diferenças que a gente inventa.” (Lima Barreto)

Há 136 anos, numa sexta-feira, em 13 de maio de 1881, no Rio de Janeiro, nascia Afonso Henriques Lima Barreto. Filho de descendentes de escravos, seu pai João Henriques de Lima Barreto era tipógrafo da Imprensa Nacional e sua mãe Amália Augusta, professora primária. O casal teve quatro filhos. Ao completar sete anos de idade, o futuro escritor e jornalista ficou órfão da figura materna, que o introduziu no universo das letras. Lima Barreto estudou no Liceu Popular de Niterói.
Ao perder o emprego, o pai passou a trabalhar como almoxarife numa colônia de alienados na Ilha do Governador (RJ). A nova atividade fez com que a família se mudasse para uma casa que se localizava dentro da área do hospício, onde lá permaneceu por quase dez anos.
Seu pai, diante das dificuldades econômicas, contou com o apoio de Afonso Celso de Assis Figueiredo (1836-1912) – visconde de Ouro Pedro – que era padrinho de Lima Barreto. Este viabilizou, com o seu prestígio político, o ingresso do menino no conceituado Colégio Pedro II onde se bacharelou em Ciências e Letras. No ano de 1897, Lima Barreto passou a frequentar o curso de Engenharia da Escola Politécnica, que não foi concluído. Nesta escola, ele era o único aluno negro.
O funcionário público
A vida seguia seu curso normal, quando, em 1902, Lima Barreto se deparou com o inesperado: a loucura de seu pai e a responsabilidade de assumir o sustento da família.  Embora os problemas enfrentados, ele estreou, naquele ano, na imprensa estudantil, escrevendo artigos críticos na revista universitária A Lanterna, não poupando os colegas e os vaidosos professores. Na capital do Império, candidatou-se, em 1903, a uma única vaga na Secretária de Guerra num concurso público, obtendo 2ª lugar. Devido à desistência do candidato concorrente, assumiu o cargo, aos 22 anos, recebendo, como copista, um modesto honorário.
Surge o  romancista
Empregado, ele se mudou, em 1904, para o bairro Todos os Santos no Rio de Janeiro. Em sua nova residência, número 32, da Rua Major Mascarenhas, começou a escrever a primeira versão do seu romance “Clara dos Anjos”, tratando, com preciosismo, questões socioeconômicas ligadas à escravidão no Brasil. Fato curioso é que Lima Barreto nasceu, no dia 13 de maio, sete anos antes da Abolição da Escravatura (1888), cuja data tornar-se-ia uma efeméride alusiva à assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel.
O livro “Clara dos Anjos” foi concluído entre os anos de 1920 e 1922.  Lima Barreto não chegou a vê-lo publicado, pois foi editado somente em 1948. A obra, na realidade, diferencia-se do seu esboço original.  O próprio autor assim declarou: “Saiu coisa bem diferente, se bem que o fundo seja o mesmo”. Em suas duas versões, a protagonista Clara é vítima da sua condição de mulher negra e pobre.  Na realidade, o cerne da trama permaneceu inalterado: trata-se da estória de uma jovem mulata que se envolve, amorosamente, com um rapaz branco e de condição socioeconômica superior, que se recusa a contrair matrimônio, para consertar o “malfeito”.
O crítico mordaz e a imprensa
recordaçoes
Colaborador na famosa revista Fon-Fon (1907-1958), Lima Barreto fundou também, com amigos, em 1907, a revista Floreal. Embora tenha circulado apenas quatro edições desta revista, ela acabou por despertar atenção do crítico literário José Veríssimo (1857-1916). Nela, ele começou a escrever o folhetim “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, editado, na forma de livro, em 1909, pela Livraria Clássica Editora. No primeiro capítulo, há uma nota autobiográfica, conferindo um tom de pessoalidade no trato de questões relativas à etnia negra e à classe social.
O romance que polemizou
Em “Recordações do Escrivão Isaías Caminha”, estão presentes os percalços, os preconceitos sociais e étnicos, que são vivenciados, pelo personagem, na busca de sua ascensão profissional na carreira jornalística. O protagonista, um afrodescendente, após diversas dificuldades, consegue um emprego de escrivão de um jornal, porém só é promovido por ter descoberto, em uma noitada de orgia, seu chefe e sua amante. Com esta publicação, Lima Barreto se tornou “persona non grata” em relação a outros grandes jornais do Rio de Janeiro, principalmente do Correio da Manhã (1901-1974).
No livro, este jornal assume o título fictício de “O Globo”. Curiosamente, mais tarde, Irineu Marinho (1876-1925) fundou, em 1925, no Rio de Janeiro, um jornal com o mesmo título, que completa, em 2017, os seus longevos 92 anos de fundação.
De acordo com a historiadora Lila Schwarcz, que lançará, em junho de 2017, uma biografia de Lima Barreto, ele foi um crítico implacável em relação ao jornalismo da sua época. O trecho da pág. 92, do livro, ratifica a opinião da historiadora:
     “A Imprensa! Que quadrilha! Fiquem vocês sabendo que, se o Barba-Roxa ressuscitasse […] só poderia dar plena expansão à sua atividade se se fizesse jornalista…”
Embora o conflito que se estabeleceu, Lima Barreto havia realizado uma série de reportagens no importante Correio da Manhã.  Nele, a obra ”O Subterrâneo do Morro do Castelo” foi originalmente publicada, em 1905, sendo o livro editado somente em 1997. Na realidade, devido às críticas presentes em “Memórias do Escrivão Isaías Caminha”, os donos dos importantes periódicos do Rio de Janeiro, passaram a ignorar a figura de Lima Barreto. Ainda neste período, ele começou a escrever o romance “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”, trazido a público somente em 1919.
Frequentador assíduo da Biblioteca Nacional, nosso escritor passou a dedicar-se, de forma intensa, à leitura dos clássicos da literatura mundial, assim como dos escritores da sua época, a exemplo de João do Rio (1881-1921) e Machado de Assis (1939-1908), Olavo Bilac (1865-1918) e Coelho Neto (1864-1934). Em relação ao primeiro escritor, devido às contundentes críticas presentes em “Recordações do Escrivão Isaías”, este acabou divergindo de Lima Barreto. Quanto a Coelho Neto, ele criticou o estilo literário do mesmo, afirmando: não posso compreender que a literatura consista no culto ao dicionário.” Também discordava dele quanto à paixão pelo futebol, pois, na época, tinha um caráter racista e excludente.
Em 1910, ano em que o cometa Halley cruzou os céus novamente, Lima Barreto fez parte do Júri, no caso “Primavera de Sangue”, e acusou os militares de participarem do assassinato de um estudante. Os responsáveis não foram condenados, A partir deste episódio, nosso escritor teve todas as suas promoções, na Secretaria de Guerra, inviabilizadas.
A contribuição literária nos periódicos da época
Um ano depois, em 1911 num período de apenas três meses, Lima Barreto escreveu uma das obras mais importantes da sua trajetória literária: “Triste Fim de Policarpo Quaresma”. Impresso, como folhetim, no Jornal do Commercio (1827-2016), o livro foi lançado, em 1915, conforme comentou, no discorrer deste texto, por uma questão cronológica.
Na Gazeta da Tarde (1880 -1887), Lima Barreto publicou, em 28 de abril de 1911, seu famoso conto “O homem que sabia Javanês”. O protagonista, o malandro Castelo, afirma ser um grande estudioso do idioma javanês quando, na realidade, trata-se de um grande engodo. Usando deste artifício, o personagem consegue enganar boa parte da sociedade carioca da época, visando à sua ascensão na carreira política, na vida acadêmica e diplomática. Mais tarde, publicou-se uma coletânea, que, além deste conto, reuniu mais quatro títulos do autor: “’Um especialista”, “A nova Califórnia”, “Miss Edith e seu tio” e “Como o homem chegou”.
Em 1911, na Gazeta da Tarde (1880 -1887), Lima Barreto registrou o que ficou gravado na sua retina, quando, aos sete anos, assistiu a uma missa campal, em alusão a Abolição da Escravatura (1888), em companhia de seu pai. Segue um trecho:
“(…) fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folgança e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente de festa e harmonia”.
 Lima Barreto sempre buscou, durante a sua existência, vivenciar a harmonia daquela tarde de 1888, constituindo-se esta, em sua visão, a essência de uma autêntica esperança de uma convivência mais justa e fraterna.
Excelente cronista de costumes do Rio de Janeiro, Lima Barreto também colaborou para diversas e importantes revistas literárias, como “Careta” (1908-1960), “Fon-Fon” (1907-1958) e “O Malho” (1902-1954).
O alcoolismo
No ano seguinte, em 1912, Lima Barreto publicou dois fascículos das “Aventuras do Dr Bogóloff” e dois livretos de humor, um deles na revista “O Riso” (1911-1912). Infelizmente, neste período, nosso escritor passou a ter sérios problemas com o alcoolismo, porém seguia colaborando na imprensa.  Sofrendo de alucinações, entre agosto e outubro de 1914, foi internado no Hospital Nacional dos Alienados.
Em 1915, o jornal A Noite (1911-1957) publicou, na forma de folhetim, a sátira política “Numa e a Ninfa”. Neste período, Lima Barreto iniciou uma longa participação, principalmente, entre 1919 e 1922, na famosa revista carioca Careta (1908-1960), na qual colaborou com artigos sobre os mais variados assuntos, predominando os de teor político.
Triste Fim de Policarpo Quaresma
polycarpo
Depois de ter sido publicado, em folhetim, “Triste Fim de Policarpo Quaresma” é lançado, em 1915, na forma de livro, pela Editora Typ. “Revista dos Tribunaes”.  Lima Barreto, nesse período, teve que recorrer a empréstimos financeiros para publicá-lo. Este clássico da nossa literatura situa-se na transição de dois períodos literários: o Realismo e o Pré-Modernismo. Com a objetividade, na forma de escrever, e o uso de um racionalismo, que se expressa por meio da realidade, a obra é retratada sem as idealizações românticas.
O personagem principal, o Major Policarpo Quaresma, foi chamado, pelo intelectual Alfredo Bosi, de o grande “Dom Quixote” nacional. (BOSI, 2006, p. 318). Trata-se, na realidade, de um personagem absorvido pelo sentimento nacionalista dos primeiros anos da República Velha (1889 -1930).
O livro, em síntese, é uma narrativa dos ideais e frustrações do funcionário público Policarpo Quaresma. Homem metódico, nacionalista fanático e sonhador, Policarpo se dedica ao estudo das riquezas do Brasil, valorizando a cultura popular, a fauna, flora e a hidrografia.  Entre outras atitudes, de extremo ufanismo do protagonista, ocorreu quando este sugeriu a substituição do idioma Português – nossa língua oficial – pelo Tupi-Guarani. As atitudes de Policarpo foram julgadas como bizarras e doentias, resultando em sua internação. Segue um trecho do livro, no qual Policarpo propõe a mudança da nossa língua oficial:
(…) “Demais, Senhores Congressistas, o tupi-guarani, língua originalíssima, aglutinante, é verdade, mas a que o polissintetismo dá múltiplas feições de riqueza, é a única capaz de traduzir as nossas belezas, de pôr-nos em relação com a nossa natureza e adaptar-se perfeitamente aos nossos órgãos vocais e cerebrais, por sua criação de povos que aqui viveram e ainda vivem” (…)
Durante a narrativa – presente na obra- cresce o abismo entre as questões ideológicas, sustentadas pelo personagem, e o mundo real que é retratado pelo autor. Narrada na terceira pessoa, a obra “Triste Fim de Policarpo Quaresma” foi adaptada para o cinema, tendo como ator principal o gaúcho Paulo José. Lançado em 1998, o roteiro é de Alcione Araújo e a direção de Paulo Thiago. O filme “Policarpo Quaresma, Herói do Brasil”. apresenta, com muito humor, trechos importantes da obra de Lima Barreto, como Policarpo se deitando de bruços na relva, para fazer sexo, com sua terra, tal a dimensão surreal do seu nacionalismo.
Na forma de quadrinhos, a obra “Triste Fim de Policarpo Quaresma” foi lançada, em 2013, visando a uma leitura compreensível, pelo público juvenil, na fase escolar. Edgar Vasquez e Flávio Braga foram os responsáveis por transformá-la em quadrinhos.
Lima Barreto, sempre mergulhado no mundo das ideias e preocupado com as questões sociopolíticas, passou a escrever no semanário político ABC. Em julho de 1917, passou às mãos do editor, J. Ribeiro dos Santos, os originais do satírico “Os Bruzundangas”, que foi publicado somente, em 1922, um mês após a sua morte. Neste livro, o autor registra os laços de nepotismo, corrupção e a sonegação de impostos que estão presentes de forma exacerbada na Primeira República (1889-1930).
A negativa da Academia Brasileira de Letras (ABL)
Diante da sua intensa produção literária, nosso escritor se candidatou à vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL), porém o seu pedido de inscrição não foi sequer avaliado. Lima Barreto, embora muito aborrecido, seguiu o seu caminho na literatura, lançando a 2ª edição de “Recordações do Escrivão Isaías Caminha” e, na forma de livro, o folhetim “Numa e a Ninfa”. Lima Barreto, neste período, passou a colaborar, com suas crônicas, na imprensa alternativa da época, tendo escrito para os jornais: A Lanterna, ABC e Brás Cubas.
Ao final de 1918 e início de 1919, Lima Barreto permaneceu internado no Hospital Central do Exército devido às contusões sofridas durante alucinações alcoólicas. Aposentado, em dezembro de 1918, por meio de decreto presidencial.
Neste ínterim, devido a um artigo crítico à etnia negra, deixou de colaborar no semanário político ABC. Neste período, também colocou à venda o romance, que havia  começado a escrever há 10 anos: trata-se de “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá”. Revisto por ele mesmo e mandado datilografar pelo editor Monteiro Lobato (1882-1948), este foi o único de seus livros a observar tais cuidados. Esta obra recebeu aplausos de intelectuais importantes, como João Ribeiro (1860-1934) e Alceu Amoroso Lima (1883- 1983). Neste livro, o Rio de Janeiro se configura numa entidade com vida própria, que se autoconsome num eterno confronto existencial entre o antigo e o novo.
Com o retorno tão positivo, em relação a sua produção literária, Lima Barreto se  candidatou, pela segunda vez, à vaga, na Academia Brasileira de Letras, (ABL) deixada por João do Rio (1881-1921), que havia se afastado em virtude de desentendimentos com o poeta Humberto de Campos (1886-1934). Desta vez, sua candidatura foi aceita, porém não conseguiu ser eleito.
Infelizmente, o fantasma do alcoolismo e da depressão continuava a assombrar o nosso escritor. Certa vez, Monteiro Lobato se deparou com Lima Barreto, totalmente, embriagado e maltrapilho, optando, então, por não cumprimentá-lo, evitando o constrangimento diante daquela situação.
A doença se agrava
o cemitério dos vivos
Em 1919, vivenciando uma forte crise nervosa, ele foi internado, pela segunda vez, no Hospital Nacional dos Alienados, Esta sofrida experiência resultou em anotações, que deram origem aos primeiros capítulos do livro “Cemitério dos Vivos”, no qual está presente o universo cruel e desolador de um hospício, marcado pelo espectro da loucura.    Autobiográfico, o livro nos apresenta o autor revoltado com injustiças e preconceitos que sofria por meio do narrador-protagonista, Vicente Mascarenhas, cuja existência, como a do autor, foi pontilhada por tragédias pessoais. Póstuma, esta obra foi publicada, na íntegra, somente em 1956.
Lima Barreto, em “Cemitério dos Vivos”, tornou público o cotidiano de um hospício, criticando o seu sistema anacrônico e carcerário ao tratar seus internos. Segue dois pequenos trechos desta magnífica e vanguarda obra:
  “Muitas causas influíram para que eu viesse a beber, mas, de todas elas, foi um sentimento ou pressentimento, um medo, sem razão nem explicação, de uma catástrofe doméstica sempre presente.” (,,,)“Choques morais, deficiência de inteligência, educação, instrução, vícios, todas essas causas determinam formas variadas e desencontradas de loucura; e, às vezes, nenhuma delas o é”.
No ano de 1920, o seu livro “Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá” concorreu ao prêmio da Academia Brasileira de Letra (ABL) de melhor livro publicado no ano de 1919 e ganhou uma menção honrosa. Ainda no mesmo ano, as livrarias passaram a vender o seu livro de contos “Histórias e Sonhos”, e Lima Barreto entregou ao seu amigo e editor, F. Schettino, os originais de Marginália, que constavam de artigos e crônicas publicados na imprensa da época. Esta coletânea foi editada em 1953.
Em seu “Diário Íntimo” (1903-1821), que foi também, postumamente, publicada a primeira edição, em 1953, o autor nos traz um relato humano pontuado pelo sofrimento e por uma incisiva denúncia de racismo.  Nele, Lima Barreto nos deixou registrado: “É difícil não nascer branco” / “a raça para os brancos é conceito, para os negros pré-conceito.” Segue um breve, trecho, no qual o autor declara a sua propensão ao suicídio:
   “Desde menino, eu tenho a mania do suicídio. Aos sete anos, logo após a morte de minha mãe, quando fui acusado de furto tive vontade de me matar.”
Em janeiro de 1921, “Cemitério dos Vivos” teve um trecho publicado, na Revista Souza Cruz (1916-1935), com o título “As origens”. Estas memórias manuscritas não foram concluídas por Lima Barreto. Em abril daquele ano, ele fez uma viagem à cidade de Mirassol, em São Paulo, onde o médico e amigo, Ranulfo Prata, tentou, sem êxito, recuperar a frágil saúde do nosso escritor.
Retornando ao Rio de Janeiro, ele se reclusou em sua modesta casa em Todos os Santos, passando a receber apenas alguns amigos e a sua irmã Evangelina. Esta se desdobrou, em relação à saúde do irmão, com cuidados e dedicação integral.  Lima Barreto procurou reagir à doença, embora as internações e o estigma da loucura de seu pai. Uma das formas de lutar contra a doença era manter o hábito de passear pela sua amada cidade do Rio de Janeiro e, na privacidade, dedicar-se à leitura e à escrita.
Em julho de 1921, Lima Barreto, pela terceira vez, tentou o ingresso na Academia Brasileira de Letras (ABL) retirando, porém, a sua candidatura. Segundo o próprio autor, a atitude foi tomada “por motivos inteiramente particulares e íntimos”.
Nos últimos meses, que ainda lhe restavam, Lima Barreto entregou os originais de ‘ Bagatelas, que reuniu uma produção literária, no período de 1918 a 1922, destacando as agruras do nosso país e do mundo após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Esta obra também póstuma foi publicada em 1923.
Na Revista Souza Cruz, de outubro /novembro de 1921, foi publicada a conferência  “O destino da literatura”, cuja apresentação Lima Barreto não conseguiu realizar na cidade de Rio Preto, em São Paulo, próxima a Mirassol. Em dezembro de 1921, ele iniciou a segunda versão de seu romance “Clara dos Anjos” – já comentado no texto – terminado no início de 1922.
No mês de maio de 1922, a revista “Mundo Literário” publicou o primeiro capítulo de “Clara dos Anjos”. Neste período, os originais de “Feiras e Mafuás”- uma coletânea de artigos e crônicas – foram entregues por Lima Barreto, visando à sua publicação, que ocorreu mais tarde , em 1953, pela Editora Mérito.
O Anarquista
Lima Barreto foi um dos poucos literatos brasileiros a se interessar pela literatura russa e ler com afinco seus autores. Após a Revolução Russa de 1917, ele se tornou anarquista. Nosso escritor foi um defensor dos animais, um crítico mordaz do academicismo e do feminismo. Quanto a este último, ele apontava falta da participação e inclusão das mulheres negras.
Ao se referir à sua “cor”, ele usava a expressão “pele cor de azeitona escura”, e tinha um olhar bastante crítico e desconfiado em relação à Lei Áurea (1888), deixando registrado em um diário: “liberdade era uma palavra que eu desconfiava e não confiava”.
Em resposta ao preconceito racial e à exclusão social sofrida, em seu cotidiano, nosso escritor escrevia sobre estes temas de forma contundente e mordaz.  De acordo com a historiadora e antropóloga, Lila Schwarcz, que, em junho de 2017, lançará uma biografia de Lima Barreto a sua intenção era de fato polemizar:
triste visionario
“Ele achava que os negros só poderiam ser socialmente integrados através da luta e do constante incômodo. Por isso, denunciava que a escravidão não acabou com a abolição, mas ficou enraizada nos menores costumes mais simples”.
Em sua obra, ele não aborda somente o centro do Rio de Janeiro, mas principalmente os subúrbios, os seus habitantes; descrevendo, com detalhes, as estações de trem, os transeuntes, as ruas, os bares, os costumes, as tradições populares, as violências e opressões, deixando, de lado, a elite burguesa.
Lima Barreto escreveu romances, sátiras, contos, crônicas e críticas, abordando as injustiças sociais presentes numa sociedade elitista e excludente.  Crítico feroz do regime oligárquico da República Velha (1889-1930), ele foi o elo de transição entre o Realismo e o Modernismo. Detentor de um estilo literário que divergia dos padrões da sua época, sua escrita era fluente, coloquial e despojada.
A morte do escritor e jornalista
Os problemas de saúde de Lima Barreto, ao longo dos anos, foram se agravando, pela presença do reumatismo, do alcoolismo, entre outros padecimentos. No dia 1º de novembro de 1922, aos 41 anos, ele faleceu devido a um colapso cardíaco.
Nosso escritor morreu no “Dia de Todos os Santos”, que, por ironia do destino, é o nome do bairro carioca onde ele viveu tantos anos. Junto ao seu corpo, foi encontrado um exemplar da “Revue dês Deux Mondes” que era a sua preferida. Dois dias após o seu falecimento, foi a vez de seu pai. Ambos se encontram sepultados, no Rio de Janeiro, no Cemitério João Batista, conforme o desejo de Lima Barreto.
Vários críticos literários consideram que Lima Barreto preparou o terreno para a vanguarda, representada, na Semana de Arte Moderna, de 1922, pelos escritores modernistas e suas propostas de transformação e de novos conceitos literários.
O trabalho literário de Lima Barreto foi recuperado, após duas décadas da sua morte, por seu biógrafo Francisco de Assis Barbosa (1914-1991), que foi o responsável pela organização da obra completa do nosso escritor.  Os originais, que se constitui num belo acervo da sua intensa produção, foram comprados, em 1949, pela Biblioteca Nacional onde está preservado, atualmente, na Divisão de Manuscritos.  Lima Barreto escreveu 17 livros.
A obra do nosso escritor já esteve também, em vários momentos, presente no teatro: Triste Fim de Policarpo Quaresma (1978 /1994), “O homem que sabia Javanês (1986)”, “Cemitério dos Vivos” (1993) e “Estação Terminal” (2008).
Embora a invisibilidade e o preconceito presentes no transcorrer da sua existência, Lima Barreto, finalmente, assume o merecido lugar no panteão dos grandes nomes da literatura nacional, que, devido ao seu talento, aliado ao brilhantismo intelectual, há muito tempo, já deveria ter ocupado.
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Carlos Roberto Saraiva da Costa Leite é pesquisador e Coordenador do setor de imprensa do Musecom.
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Bibliografia :
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006.
BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, 2002.
CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, Thereza Cochar. Literatura Brasileira em diálogo com outras literaturas. 3 ed. São Paulo, Atual editora, 2005.
ENGEL, Magali Gouveia. “Gênero e Política em Lima Barreto”. In: Cadernos Pagu. Nº 32 jun / 2009.
NOLASCO-FREIRE, Zelia. Lima Barreto: Imagem e Linguagem. Sâo Paulo: Annablume, 2005.
PRADO, Antonio Arnoni. Lima Barreto: o crítico e a crise. Rio de Janeiro: Cátedra, 1976.
VÍDEO : Depoimento de um grande intelectual do movimento negro no Brasil : Joel Rufino dos Santos (1941-2015).
http://observatoriodaimprensa.com.br/memoria/na-fronteira-da-genialidade-e-da-loucura-lima-barreto/


Doe vida
Paiva Netto


Não há nada mais valioso na Terra do que a existência humana. No planeta, somos os únicos seres conscientes da finitude física, embora prossigamos nossa jornada de aprendizado, no âmbito espiritual, após o fenômeno chamado morte. A partir do momento que valorizamos a vida desde o seu estágio físico, construímos, verdadeiramente, uma Sociedade Solidária Altruística Ecumênica.

A doação de sangue, aplaudível vereda que aproxima o ser humano de sua humanidade, é indispensável em favor de tantos que lutam para sobreviver.

No Brasil, em período de férias e feriados, justamente quando ocorrem mais acidentes de todo tipo, cresce a demanda por sangue e diminui o número de doadores. Um cálculo cujo saldo preocupa os hemocentros do país.


Déficit Nacional

Em entrevista ao programa Sociedade Solidária, da Boa Vontade TV (Oi TV — Canal 212 — e Net Brasil/Claro TV — Canal 196), a dra. Selma Soriano, médica hematologista e hemoterapeuta da Fundação Pró-Sangue de São Paulo, fez um apelo: “Que a população antes de tirar férias, de sair em viagem, faça a sua doação de sangue. Normalmente, a demanda de sangue em feriados aumenta em torno de 30%, e a doação cai em torno de 40%. Daí trabalharmos sempre com os estoques no limite. Desse modo, priorizamos o atendimento de urgência (...)”.

A transfusão de sangue é imprescindível não somente no socorro às vítimas de graves acidentes, de catástrofes como deslizamentos de terra, inundações etc. A dra. Selma explica: “Precisamos, e muito, de doações de sangue no tratamento de pacientes que estão em Unidade de Terapia Intensiva; para os que lutam contra o câncer que, às vezes, carecem de reposição de sangue; e para os pacientes de transplante de órgãos. No caso de doenças congênitas, temos a hemofilia. Isso sem falar nas cirurgias. Nas de grande porte, 60% delas necessitam de transfusão de sangue”.

Segundo o Ministério da Saúde, 3,7 milhões de pessoas doam sangue anualmente no Brasil. Está longe de ser o ideal, já que deveríamos ter cerca de 5,4 milhões de doadores. Para suprir esse déficit são feitas campanhas de apelo à sociedade. “Temos 1,8% da população brasileira que doa sangue, e a gente deveria estar entre 3% e 5%. Faltam componentes sanguíneos para algumas situações específicas”, revela a hematologista.


Minutos que salvam

Que essa ação caritativa se torne um hábito saudável e permanente, já que é algo que não exige sacrifício algum. “Entre a pessoa chegar a um banco de sangue e fazer a sua doação, ela permanece de 40 a 50 minutos no máximo. O ato em si, propriamente dito, leva apenas 7 minutos”, afirma a dra. Selma.

Inúmeros são os postos de coleta no Brasil. No site www.prosangue.sp.gov.br, você encontra vários deles e se informa quanto aos requisitos básicos para ser um doador de sangue.

Eis nosso contributo no esclarecimento geral a respeito desse importante assunto. Doar sangue, gesto que merece o devido apoio de todos, pode ser a própria salvação do ofertante amanhã.

José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.paivanetto@lbv.org.br — www.boavontade.com


MILHÕES & BILHÕES

Enquanto os astrônomos contam estrelas aos milhões nas galáxias do universo, os poetas – que sonham nas altas esferas do pensamento superior, a milhares de quilômetros da realidade cruel - também deram seu alerta.  Olavo Bilac exclamou: "Ora (direis) ouvir estrelas!” Um poeta contemporâneo muito original, Marcial Salaverry, adaptou: “Ora direis... contar estrelas. / Melhor que apenas vê-las... / Contá-las, será mais fácil.”

Voltando à nossa realidade, vejamos o que se deu entre nós aqui no Brasil. Não estávamos acostumados aos parâmetros de milhões e bilhões a não ser para contar estrelas. Mas eis que surgem os que insistem em contar cédulas monetárias em números astronômicos para fins não esclarecidos. Isso causou um constrangimento geral, uma vergonha nacional indescritível. Claro que os poetas e astrônomos não têm nada com isso.

O fato é que nós – os mortais comuns que não somos nem estudiosos das estrelas nem poetas sonhadores – ficamos com a surpresa dos fatos, atônitos com os alarmantes números estratosféricos...  e com a conta.

Convidamos o leitor a ter calma diante da grave situação nacional que está nos deixando a ver estrelas de tanta dor angustiante e reflita mais sobre felicidade. Sabe por quê?
Porque não são os milhões ou bilhões ( de estrelas ou de cédulas ) que trazem felicidade. A felicidade é que nos faz apreciar as estrelas do céu infinito ou ter honestamente os meios necessários para nossa simples subsistência aqui na Terra. A honestidade manterá o clima de felicidade geral em todos nós, brasileiros dignos, e isso é o suficiente para o ser humano ético.

Seremos, assim, verdadeiramente ricos sem precisar fugir de nós mesmos ou para outro país...

Francisco Habermann


Jesus é o Democrata Celeste, a divina liderança das Almas livres

Aprendemos que Deus concede ao ser humano a liberdade na condução de sua própria vida. Todavia, o Criador não é inconsequente. Ele abaliza essa mesma liberdade com leis recíprocas, que promovem o equilíbrio. No caso, a Lei de Causa e Efeito. Plantou-se, colhe-se! O Bem ou o mal. Por isso mesmo, há décadas, defini a Democracia como o regime da responsabilidadePortanto, jamais deve ser confundida com caos.
Rui Barbosa (1849-1923), destacado jurista, jornalista, diplomata e político brasileiro, na sua belíssima “Oração aos moços”, escreveu: “A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam”.
É evidente que isso não se trata de um pensamento de Al Capone (1899-1947), porque, assim, eu não o colocaria nesta reflexão, dedicada à Fraternidade Ecumênica.
Rui não se refere aqui ao uso da exclusão, que é violência, pois tinha conhecimento de que desumanidade resulta em desumanidade. E o notável “Águia de Haia”, anteriormente em seu discurso proferido no dia 15 de janeiro de 1910, no Teatro Politeama Baiano (Salvador/BA), a certa
altura declarara: “Deus não recusa a liberdade aos Seus próprios negadores. Mas, por isso mesmo, no fundo mais inviolável de toda a liberdade está Deus, a sua garantia suprema”.
Jesus exorta em todos nós o exercício da Fraternidade Ecumênica ao nos deixar o Seu Mandamento Novo, a Suprema Ordem do Cristo (Evangelho, segundo João, 13:34 e 35) — “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Somente assim podereis ser reconhecidos como meus discípulos” —, porque sem esse sumo sentido de verdadeira Justiça, de Solidariedade e de Generosidade a Liberdade se torna condenação ao caos. Ele também admoesta: “Quando o Filho de Deus voltar sobre as nuvens com os Seus Santos Anjos, dará a cada um de acordo com as próprias obras de cada um”(Evangelho, segundo Mateus,  16:27).

José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.