Médicos relatam que 'nova' covid no AM é mais rápida, grave e letal entre jovens

Mathias Dantas/AFP

A velocidade e gravidade da evolução da covid-19 em pacientes que buscam atendimento médico em Manaus têm chamado atenção dos profissionais de saúde. Eles atestam que a nova fase da doença tem maior transmissibilidade provovada por mutações que geraram uma nova variante no estado.

Dados apontam que agora pessoas mais jovens estão morrendo com covid-19. De acordo com registros de óbitos nos últimos 30 dias, 4 em cada 10 vítimas fatais no estado tinham menos de 60 anos.

"Algo de muito diferente está ocorrendo em Manaus. Não sei informar se é uma cepa nova ou se é algo diferente. Mas quem está na linha de frente está vendo um aumento da gravidade dos casos", diz o infectologista e pesquisador Noaldo Lucena, que trabalha em hospitais públicos, clínica popular e também faz atendimento domiciliar.

Ele diz que as mudanças vão além da já conhecida maior contagiosidade da nova variante. "Claramente estamos diante de um ser invisível que é muito mais patogênico e transmissível. Hoje chegam famílias inteiras com os sintomas ao mesmo tempo, antes era um de cada vez", afirma.

O infectologista conta que exames mais recentes mostram lesões mais graves nos pulmões dos pacientes. "Neste ano, eu já vi mais 150 pessoas aqui na clínica e mais 300 no serviço público. Digo que menos de 2% deles tinham comprometimento leve. Os demais eram comprometidos acima de 50%. Alguns com 70%, 80%, 90%, com necessidade de internação imediata e até suporte ventilatório", diz.

De acordo com Lucena, agora a doença tem menos sintomas capazes de serem identificados em um exame clínico. "Você ausculta o pulmão do paciente e não escuta nada. Mas, quando vemos a imagem tomográfica, não acredita como há um comprometimento tão grande com tão pouca repercussão clínica notória".

Outro ponto relatado é maior a mortalidade em pessoas mais jovens, que estaria ligada à maior patogenicidade do vírus.

"Sem dúvida muito mais jovens estão morrendo. Não estamos falando só de grupo de risco: isso está em todas as faixas etárias, atingindo bebês, crianças, adolescentes mesmo sem comorbidade", afirma infectologista Silvia Leopoldina, que atua nas redes públicas estadual e municipal da capital amazonense.

Ela conta que houve mudanças no comportamento da covid-19 no estado. "Antes, os primeiros sintomas de gravidade apareciam em torno do décimo dia em diante. Agora têm pacientes que, com sete, oito dias, estão com comprometimento de 75% dos dois pulmões". A médica afirma que o encurtamento no tempo de agravamento dificulta a recuperação.

A enfermeira Ana Paula Rocche concorda que "o vírus não é mais o mesmo". Ela diz que a queda de saturação dos pacientes acontece de maneira muito mais rápida e silenciosa.

"O paciente começa no primeiro dia sentindo uma dor de garganta; depois sente uma dor de cabeça; no terceiro dia ele já começa uma febre, mas no quarto começa uma falta de ar começa, e quando você coloca um oxímetro nele, a saturação que era para estar em 98% está 70%, 75%. Isso não é normal! É uma coisa extremamente grave que ataca as vias aéreas e pulmões, e de forma silenciosa demais", diz.

A enfermeira relata que, em vez de dor, diversos pacientes têm relatado "agonia" no peito. "O pulmão parece que vai ressecando, que vai encolhendo; e aí você entra com tudo que é antibiótico, anticoagulante e o pulmão não expande. Isso não é normal", conta.

"Nós não estamos sabendo lidar com isso. Está estranho demais. As pessoas ficam ruins em outros locais, mas não como a gente está vendo. Isso aqui é outra coisa", diz Rocche.

O professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e pesquisador da Fiocruz Amazônia, Bernardino Albuquerque diz que a percepção vem do colapso no sistema de saúde.

"A partir do final de dezembro, houve uma saturação no atendimento. Temos visto pacientes esperando horas em uma ambulância. O estado clínico fica agravado por essa peregrinação, além de faltar insumos", afirma.

"Se tivéssemos um sistema de saúde preparado para atender esse segundo momento, não haveria tantas mortes. O governo desmontou toda estrutura que tinha antes, estamos começando tudo de novo", continua Alburquerque.

Um fator que agravou a situação do Amazonas foi a nova variante do vírus. "Chance [de causar doença mais grave] existe, mas não existem evidências ainda sobre ser mais patogênica", diz o pesquisador Felipe Naveca, da Fiocruz Amazônia.

Fonte: UOL

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