Artigo: Marcas comerciais que me marcam - Gutenberg Costa

 

Por Gutenberg Costa – Pedagogo, Bacharel em Direito, Folclorista e escritor.


Minhas filhas me acusam de ser um eterno saudosista. E confesso, elas têm total razão. Fazer o quê quando se chega a mais de sessenta de vivências com uma memória ainda puxando coisas desde os três anos. Só paciência na causa! As imagens estão tão claras, como os filmes nas velhas telas dos saudosos cinemas ‘São Luiz’, do bairro do Alecrim e ‘Rose’ de Pendências. Muita gente até mais idosa vem me consultar o passado. Tempos inesquecíveis com muitas marcas feito tatuagem no coração!

Sinto o cheiro da ‘Maisena’ e o gosto das antigas papas. A ‘Arroizina’ para os mingaus preparados por dona Estela e depois por minhas duas irmãs, Socorro e Gracinha, para meus sobrinhos. Nem precisa dizer que eu brigava pela sobra do papeiro. O cuscuz era cozido em um prato e abafado com um pano. Depois de colocado na mesa o mesmo era ensopado com o leite de coco. Nem cachorro comia porque não sobrava. Gatos e cachorros nem sonhavam com rações. Lá em casa eram sete pares de queixos batendo três vezes ao dia. O pão da padaria ‘Cial’ de Osmundo Faria, da Alexandrino de Alencar era artigo de luxo. Na diária, reinavam a batata, macaxeira ou banana cozida, chamada ‘Chifre de boi’.  A Canela em pó’ não podia faltar para dar gosto no que minha saudosa mãe preparava. O óleo era marca ‘Benedito’, ilustrada com um negro cozinheiro a caráter para a época. Meu ‘Nescau’ que era muito escasso, me trazia soldadinhos ou índios de plásticos dentro das latas. Alguém pode até não acreditar, mas ainda guardo alguns desses brinquedos que vinham em alguns produtos como brindes daquele tempo. Heranças para meu neto João Rafael!

Seguindo os conselhos do ‘Jeca Tatuzinho’, tinha que andar limpo e asseado. De vez em quando tomava ‘Biotônico Fontoura’ e ‘Emulsão de Escott’ com um homem de chapéu carregando um grande peixe nas costas. Tudo comprado nas farmácias ‘Dutra’ ou ‘Coelho’, lá do meu Alecrim. Papai era dono de um caminhão velho ‘Chevrolet’. Meu rico avô materno, além de vários carros tinha uma ‘Veraneio’’, cor verde. Gilson, meu irmão mais velho, tinha uma ‘DKW – VEMAG’, também de cor verde. Carro preto só da funerária.

Fiquei até mais orgulhoso diante dos amigos, quando recebi de minha cunhada Kilde um grande gravador tipo toca fitas vindo de Manaus. Quando faltava dinheiro para comprar as pilhas ‘Rayovac’, usava mesmo na energia. E o tal som ambulante, não dava descanso ao Tim Maia e Raul Seixas.

Depois de concursado em datilografia é que comprei minha primeira máquina de escrever ‘Remington’. Na verdade, catava milho e continuo ainda hoje no meu notebook marca ‘Lenovo’. E aquela velha máquina tinha um barulho ensurdecedor, mas inesquecível! Guardo duas delas com muito carinho.

Comecei trabalhar aos 14 anos no Centro Comercial do Alecrim, com o patrão que se tornou um pai Sebastião Penha, contador. Sua esposa dona Neide até me levava para sua casa aos sábados e domingos. Ganhava meus extras, comprando cervejas ‘Brahma’ e ‘Antártica’ ou cigarros ‘Continental’ ou ‘Hollywood’ para atender a boemia visitante. Com dinheiro farto no bolso, comecei a esnobar com calças compridas ‘Far-West’ ou aquelas tipo ‘Boca de Sino’. Camisas ‘Volta ao Mundo’ e sapatos de borracha marca ‘Cavalo de Aço’. Adeus ao velho e odiado ‘Vulcabrás’. A tintura azul em tubo ‘Guarany’ milagrosamente deixava minhas velhas calças novas.

E já que falei do milagre da transformação das roupas desbotadas digo que a santa era mesmo a dona Estela, minha mãe. Ela, para arrumar bem seus filhos, só não fazia chover. Bancou sozinha a minha primeira comunhão na Igreja de São Pedro, do Alecrim, graças ao jogo do bicho. Deu coelho na cabeça e alegria no menino do Grupo Escolar Professor Clementino Câmara. Que maldade, aquele meu querido chão foi demolido! É difícil acreditar que quase tudo de prédios vistos na minha infância só existem hoje em fotografias de filmes ‘Kodak’.

E para fazer inveja ao meu amigo memorialista Walter Medeiros, eu vou declarar que ainda guardo muitas revistas compradas na calçada do cinema São Luiz da Avenida 2. Revistas em quadrinhos, onde os heróis matavam os pobres índios. A matança indígena era grande nas telas dos cinemas ‘REX’ e ‘Rio Grande’, da Cidade Alta. A vida mudou e os considerados heróis daquele passado, são os bandidos de nossos netos. Ainda bem! Naquele tempo só Roberto Carlos podia mandar todo mundo para o inferno. Era o auge dos militares. Tive que esconder muito as revistas ‘Ele Ela’, com mulheres de biquines na capas.

 Meu tio Armando quando vinha de Pendências para Natal era eu o menino comprador de suas brilhantinas do ‘Zezé’ ou ‘Glostora’. O pirulito de chocolate da ‘Kibom’ no esquecimento de dar as namoradas, voltavam grudados nos nossos bolsos. Ainda assisti o repórter ‘Esso’ na televisão ‘RQ’, comprada em suaves 12 prestações das ‘Casas Régio’. Nessa leva, lembro Jota Silvestre, Blota Júnior e o chato do Flávio Cavalcante tirando os óculos e dizendo pra câmera: “um instante para os comerciais”. Divertidos e debochados eram Chacrinha, Jucá Chaves, Ary Fontoura e Costinha, além da pornográfica Dercy Gonçalves. Não tenho como esquecer as boas novelas da ‘TV Tupy’. Eu ainda tinha que comprar figurinhas dos artistas para meu álbum de coleção. Em uma feira de antiguidades do Rio de Janeiro, repus algumas estampas vindas do sabonete ‘Eucalol’ as minhas tralhas. O perfume ‘artimatic’ era caro, mas durava três dias nas vestimentas. Minha mãe cheirava talco ‘Cashmere Bouquet’ e ‘Água de Colônia’ da mesma marca. E passava sempre seu pó ‘Compacto’ no rosto e esmalte ‘Colorama’ róseo nos dedos das mãos, antes de sair de casa. Juro que qualquer dia vou achar as antigas carteiras de cigarros, que a gente chamava de ‘dinheiro’. Socorrei-me São Longuinho! Tenho guardado a sete chaves duas fichas, uma de orelhão e a outra das radiolas de cabarés. Caiu a sua ficha meu caro leitor ou leitora? Era a gíria de então…

Nunca acertei os 13 pontos da ‘Loteria’ e nem muito menos a milhar da banca de seu ‘Domício’. Saudades da fumaça do ‘Café Vencedor’. Hoje não saio de casa sem meu pente, espelho redondinho, caneta e lenço de pano no bolso. Podem até achar que sou doido, mas vivo muito feliz e embarco na ‘Bicuda’ ainda ouvindo o cobrador dizer em alto e bom som com as notas da Princesa Isabel entre os dedos: Rocas, Alecrim, Quintas via Bom Pastor…

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