Reabertura do comércio no RN abre crise no comitê científico estadual

Coordenador do LAIS/UFRN Ricardo Valentim vem falando em nome do comitê (foto: Elisa Elsie)


A decisão tomada pelo Governo do Estado de reabrir parte do comércio na semana passada abriu uma crise no comitê científico estadual. O infectologista Ion de Andrade e o professor de Física da UFRN José Dias do Nascimento Júnior não fazem mais parte do grupo.

Embora tenham dado justificativas diferentes, os dois pesquisadores vinham tendo divergências com a forma como o comitê vem sendo conduzido. A coordenação é do secretário de Estado de Saúde Pública Cipriano Maia, mas quem fala em nome do comitê nas entrevistas coletivas é o coordenador do Laboratório de Inovação Tecnológica e Saúde da UFRN Ricardo Valentim.

O estopim foi o anúncio da retomada gradual da economia pelo Governo com base numa suposta avaliação do comitê antes que o próprio comitê tenha se posicionado sobre o tema. Na sexta-feira (3), os Ministérios Públicos Estadual, Federal e do Trabalho também criticaram de forma dura a reabertura pela prefeitura de Natal e também pelo Governo do Estado.

O Rio Grande do Norte contabiliza 1.219 mortes, sendo 183 em Natal (RN). Ao todo, 34.717 potiguares já foram diagnosticados com a Covid-19. A taxa de ocupação dos leitos nesta segunda-feira (6) é de 82,47%.
Em artigo publicado domingo (5) na agência Saiba Mais Ion de Andrade tornou pública sua saída do grupo e destacou que não é possível atribuir ao comitê “qualquer causalidade sobre um processo de retomada que foi previamente decidido pelo Governo do Estado, conforme a própria governadora reconheceu na entrevista que deu ao “ContraFluxo”, em 2 de julho”.
O fato do comitê ser um órgão consultivo também foi alegado pelo especialista para deixar a equipe que vinha avaliando cenários para orientar as decisões da gestão estadual sobre a pandemia:

– As razões que me levaram a me afastar decorrem do fato de que a condição meramente consultiva do comitê o impede de qualquer iniciativa própria, até mesmo para se defender ou para repor a verdade no que toca ao seu próprio trabalho, pois depende para isso da concordância do próprio Poder Executivo, de quem é consultivo”, afirmou.
Andrade ressaltou, ao contrário, que o comitê não defendeu a flexibilização das medidas protetivas:

“O comitê diz: é importante estar alerta para o risco de um aumento desta R(t) e uma possibilidade de uma segunda onda de casos ou uma reativação da primeira onda, ao se promover um relaxamento das medidas que restringem a circulação das pessoas. Essa condição, associada com a taxa de ocupação de leitos apresentada na seção 1.1.1, apontam claramente que ainda não é hora de relaxar o afastamento social”, escreveu.
Professor do curso de Física da UFRN e responsável pelos modelos matemáticos que projetam cenários da Covid-19 no Rio Grande do Norte, José Dias do Nascimento Júnior também criticou o anúncio da retomada e afirmou que a decisão de reabrir o comércio não pode ser debitada na conta da ciência:

– Cientificamente não tínhamos nenhuma razão para abrir naquele momento, mas foi aberto. Isso obviamente criou uma ingerência, mostrou que a ciência está em segundo plano, o primeiro (plano) foi o político, que também é respeitável. Concordo que se pode fazer uma opção politico, não tem problema nenhum, acho até que é importante. O que não se pode é misturar as duas coisas, uma forma de utilizar a ciência quase como uma muleta. Então para não prejudicar o grupo e não criar falas em dissonância eu preferi deixar o comitê, por motivos parecidos (com os do médico Ion de Andrade). Vamos seguir fazendo análises e contribuindo, mas com uma voz independente, como deve ser a ciência”, afirmou
A agência Saiba Mais tentou contato com Ricardo Valentim, quem tem representado o comitê nas entrevistas coletivas do Governo, mas a assessoria do LAIS/UFRN afirmou que ele não coordena o grupo e passaria o dia em reunião. A reportagem procurou a secretaria de Estado de Saúde Pública, mas até o fechamento desta matéria não enviou resposta.

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