Demo esquecida da banda Sodoma é lançada em CD


Éramos jovens, classe média, rockeiros e morávamos numa cidade pouco afeita a transgressões. Na virada da década de 1970 para os anos 1980, o som do rock fica mais pesado com a nova onda que vinha da Inglaterra. Era a New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM), a sucessora (ou seria herdeira?) do hard rock setentista. A primeira edição do Rock In Rio serve para catapultar o emergente estilo musical que tomava conta do mundo.
A tímida cena rockeira natalense, que comportava poucas bandas, como Fluidos, Lã de Vidro, Saída de Emergência, Cabeças Errantes e Serpentários, toma impulso em 1986 com a realização do Festival da Mocidade, na Cidade da Criança, onde pudemos assistir ao show da banda carioca Metalmorphose. Foi um êxtase. A tietagem corre solta e o quinteto vai parar nos estúdios da Rádio Poti AM para uma entrevista com um jovem músico chamado Edu Heavy, que comandava o programa Metal Pesado, e também já dava os primeiros passos na condição de guitarrista de uma banda recém-formada.
O Sodoma era o nosso Iron Maiden. Íamos para a casa de Edu, no bairro de Candelária, onde passávamos as tardes curtindo os ensaios da banda, que naquela primeira formação contava com Gilvan Rato (vocal), Ângelo Marcio (baixo) e Roosevelt Figueiredo (bateria), além do próprio Edu Heavy nas seis cordas.
Com a formação definida, não tarda para o Sodoma dar a cara a tapa em 19 de julho de 1986, numa jam de bandas, na casa onde ensaiava o Lã de Vidro. Pouco tempo depois, a banda se apresenta na Escola Estadual Floriano Cavalcanti. A partir daquele show, o Sodoma não mais para.
Os fãs aumentam à medida que a banda arrepia nos shows. Sentindo a necessidade de profissionalizar o quarteto, Edu Heavy substitui o vocalista Gilvan Rato por Sérgio Feitosa, da banda Serpentários. Com a nova formação e equipamentos de ponta, o Sodoma faz importantes shows para além do Rio Grande do Norte. O primeiro foi no Necrofestival, em Fortaleza (CE), a 10 de janeiro de 1987. Segundo as boas línguas, a banda se garante como a melhor do festival.
Outra oportunidade de ouro é a apresentação no Teatro Apolo, em Recife (PE), a 28 de março de 1987, abrindo para a banda carioca Taurus, que lançara o ótimo álbum Signo de Taurus. O Sodoma toca seis músicas e angaria a simpatia do público recifense. A boa nova do show foi a entrada do segundo guitarrista, Paulão Vianna, outro ex-membro do Serpentários, que acrescentou mais peso ao som e melhorou o nível das composições.
O próximo passo do Sodoma seria a gravação de uma demo tape. Logo no início das sessões, o baixista Ângelo é substituído por Alexandre Agaffi, irmão de Sérgio. Com a formação estabilizada, a banda ainda faz dois shows antológicos, um na Festa do Boi, abrindo para Robertinho de Recife e a banda Metalmania, e o outro no Palácio dos Esportes. Após as performances, o Sodoma inicia a gravação da demo Prisioneiros do Absurdo, no estúdio improvisado montado na casa de Candelária, tendo como técnico de som o músico Franklin Nogvaes. O resultado foi muito bom considerando a inexperiência da banda em estúdio. O agora quinteto grava oito faixas e lança a demo em fita cassete.
Com o registro em mãos, Paulão Vianna se manda para o Rio de Janeiro, logo seguido por Edu Heavy, e na megalópole percorrem o circuito local, visitando a sede da editora da revista Metal e as rádios Fluminense, de Niterói, e a FM Transamérica. Também peregrinam pelas lojas/selos Heavy e Point Rock. A demo obtém resenhas elogiosas nas revistas Metal e Rock Brigade, consideradas, à época, as duas principais publicações do estilo heavy metal no Brasil.
A promoção da demo gera propostas para a gravação de um álbum, mas a condição imposta pelos selos era que o Sodoma adotasse a língua inglesa em suas composições. A barreira do idioma bretão faz com que a banda esfrie as atividades. O foco de Edu Heavy, então, passa a ser a construção de um estúdio próprio, que deveria ser referência em toda a Região Nordeste. Mas o trágico e doloroso acidente automobilístico, que ceifou a vida do músico, em julho de 1988, foi o acorde final do Sodoma.
Neste ano de 2020, o sonho de Edu e demais membros da banda finalmente se concretiza com o lançamento do CD duplo Prisioneiros do Absurdo, pelo selo carioca Dies Irae. O disco 1 apresenta as oito faixas da demo de 1987. Já o disco 2, é uma compilação de músicas inéditas em estúdio e outras capturadas ao vivo. Traz, ainda, uma entrevista na FM Transamérica, com Edu Heavy e Paulão Vianna.
O registro deve ser apreciado sem nenhuma moderação, mas com ouvidos voltados para a sonoridade da década de oitenta, quando o Sodoma reinou soberano na corte do heavy metal potiguar. Faixas como “Prisioneiros do Absurdo”, “Fisgada letal”, “Torres do Silêncio”, “Sodoma”, “Divina Tormenta” e “Klu Klux Klan” moldaram o som da banda que marcou história na música pesada potiguar e nordestina.
Agora em 2020, o Sodoma retomou as atividades com Gil Oliveira (vocal), Paulão Vianna (guitarra), Hugo Albuquerque (guitarra), Wilton César (baixo) e Damião Paz (bateria). A banda está ensaiando para logo mais iniciar uma maratona de shows. O CD pode ser adquirido diretamente com Paulão Vianna (98775-1520) ou pelos sites www.diesirae.com.br e www.risingrecords.loja2.com.br.

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