Zila Mamede: arando caminhos

 
O Arado é um livro que remete a muitas lembranças da Zila, de menina a adolescente
Texto: Hellen Almeida
Foto: Emílio Vale
 
O arado - instrumento utilizado no preparo da terra a ser plantada, revolvendo o solo, tornando-o fértil para receber a semente que se torna alimento. Assim como essa ferramenta, que auxilia na plantação, Zila da Costa Mamede plantou sementes e colheu os frutos nas diversas áreas pelas quais atuou em sua vida. Um de seus frutos, o livro de poesias O Arado, completa neste mês de setembro 60 anos de publicação. A bibliotecária e poeta (não gostava que a chamasse de poetisa), nascida no dia 15 de setembro de 1928, completaria 91 anos no domingo passado.
O Arado é um livro que remete a muitas lembranças da Zila, de menina a adolescente, que nasceu no município de Nova Palmeira, na Paraíba, e passou lá sua primeira infância até os seis anos, quando se mudou para Currais Novos, no Rio Grande do Norte, onde viveu até os 14 anos de idade.
“É um reencontro de Zila com suas raízes. Ela resgata no livro memórias de acontecimentos e pessoas próximas, como seu avô Francisco Bezerra de Medeiros, apelidado de Caçote, que representava a vida rural em toda a sua plenitude”, destaca o escritor, jornalista e professor aposentado da UFRN, Tarcísio Gurgel. Ele cita que uma das poesias da obra mamediana, O Açude, lembra o avô da poeta, cuja habilidade em nadar acabou sendo herdada por Zila.
Até então consagrada como poeta litorânea, pelo deslumbramento dela pelo mar, a escritora volta sua poesia para o sertão na obra O Arado. Contudo, o meio aquático continua forte nessa nova fase de sua produção e o mar dá espaço para outros ambientes ligados à água. Para Tarcísio Gurgel, possivelmente um dos momentos mais elevados da poesia de Zila Mamede esteja neste livro, com o surgimento de poemas sobre açudes.
Banho Rural é considerado um dos 100 maiores poemas brasileiros. Foto: Anastácia Vaz
Inclusive, o poema Banho Rural, que faz parte do livro, foi considerado um dos 100 maiores poemas brasileiros, de acordo com pesquisa realizada por Ítalo Moriconi, doutor em Letras e professor de Literatura Comparada da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, que resultou no livro Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século, com primeira publicação datada de 2001.
Banho Rural é um poema belíssimo que narra o momento em que uma moça, que está na casa da fazenda, toma direção ao açude, mas caminha pisando na relva, e de repente, os primeiros jatos de água caem sobre ela. É um relato tão belo, clássico, e quem lê o poema se emociona”, revela Tarcísio Gurgel.
Ele considera O Arado um livro fundamental na poética de Zila. “Eu amo esse livro, é pequeno e muito importante porque ele é como um reencontro de Zila com suas raízes”, ressalta. O professor afirma ainda que é muito importante comemorar os 60 anos do livro, pela representatividade na literatura do Rio Grande do Norte e por ser uma obra definitiva na poética de Zila.
Para Tarcísio, “nunca é demais reconhecer a importância de Zila para a literatura e a cultura potiguar como um todo. Ela era assumidamente uma pessoa voltada à ideia da organização. Isso que é mais marcante na poesia de Zila Mamede, mais ainda do qualquer outro poeta do RN. Seus livros têm um sentido de unidade dentro da obra dela, que a caracteriza, que traz o mar, o sertão, e se consagra em O Arado”.

Exemplar do livro O Arado, disponibilizado na BCZM. Foto: Cícero Oliveira
A Biblioteca Central Zila Mamede está realizando em setembro uma exposição com os poemas do livro O Arado, a matéria está disponível neste link.
Nascida na Paraíba, Zila se tornou referência nacional como poeta potiguar. Algumas vezes, conforme a própria autora citou, ela se surpreendia quando via o local de nascimento em sua carteira de identidade. Mas não havia diferença para ela da terra em que nasceu e a que viveu na infância e adolescência.
Tarcísio Gurgel coloca que a obra de Zila Mamede funde a Paraíba com o Rio Grande do Norte com a maior naturalidade, pois suas influências vêm de regiões bem próximas cultural e fisicamente. “A região paraibana onde ela nasceu é muito determinante na cultura de todo o Seridó potiguar. Quando Zila sai de Nova Palmeira e vai para Currais Novos, ela não sente diferença, a não ser por ter ido para uma cidade maior”, acrescenta.
Zila Mamede
Poeta, bibliotecária, técnica em contabilidade, diretora de bibliotecas no Estado, entre elas a Biblioteca Central Zila Mamede por um período de 21 anos, Zila da Costa Mamede estava sempre semeando novos caminhos em sua vida. Não tinha medo de desafios, mesmo que alguns deles, como organizar o acervo e escrever um livro sobre Luís da Câmara Cascudo, tenham exigido muito de si e feito com que se questionasse sua produção poética.
Nascida em 15 de setembro de 1928, a paraibana/potiguar chega a Natal no ano de 1942, no período da Segunda Guerra Mundial, com a idade de 14 anos, trazida pelo pai após ter feito o primário em Currais Novos. Inicia seus estudos no Colégio Imaculada Conceição, em 1943, no curso básico de Contabilidade, como aluna interna.
Máquina usada por Zila para datilograr seus poemas. Foto: Anastácia Vaz
Moça tímida, como ressalta Tarcísio Gurgel, ao sair do internato Zila Mamede percebe-se como adulta e passa a atuar no comércio natalense datilografando notas fiscais em uma empresa na Ribeira. Em seguida, passa a colaborar com o Jornal A Tribuna, onde escreve uma coluna com notícias sociais e culturais. É nesse momento que Zila começa a publicar algumas poesias de sua autoria na coluna.
Nessa ocasião, acontece um episódio interessante, que é o desentendimento de Zila com Antonio Pinto de Medeiros, intelectual conhecido à época. “Ele faz uma crítica em sua coluna no jornal dizendo não ser possível uma pessoa conseguir publicar toda semana uma poesia e manter sua produção com qualidade”, revela Gurgel. Esse desentendimento é desfeito tempos depois, quando, numa festa de São João, eles se encontram e dançam juntos. Zila aproveita para questionar o porquê de ele ter feito o comentário e Antonio Pinto de Medeiros responde que enxergava nela um talento tão grande que Zila precisava parar de publicar ansiosamente e passar a ter um zelo maior na construção de seu verso. Após esse fato, eles se tornam amigos.
Colhendo frutos
Com um maior cuidado com sua produção, Zila Mamede amadurece poeticamente e passa a publicar em vários jornais do país, colhendo frutos de seu trabalho ao ser reconhecida pelo seu talento. Em 1953, lança seu primeiro livro - Rosa de Pedra - publicado pela Imprensa Oficial do RN. Após a publicação da obra, Zila passa a trocar cartas com importantes escritores brasileiros, entre eles Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Em 1958, é a vez de publicar o livro SalinasO Arado veio em 1959.
Carta escrita por Zila Mamede. Foto: Anastácia Vaz
Após O Arado, a escritora deixa um pouco a poesia de lado e embarca no projeto grandioso de organizar a bibliografia do pesquisador e historiador potiguar Luís da Câmara Cascudo. Em 1970, a poeta lança o livro Luís da Câmara Cascudo: 50 anos de vida intelectual, 1918-1968: bibliografia anotada.
Esse trabalho afastou-a por algum tempo da poesia e a fez questionar a qualidade de sua produção. A avaliação levou a poeta para outros caminhos. Ela passa a fazer experimentos de linguagem. O Exercício da Palavra, publicado em 1975, mostra um trabalho ousado, misturando longas poesias, como Flamengol, que possui cento e dezoito versos e remete a transmissões radiofônicas, ao poema A Ponte, bastante curto.
Segundo Tarcísio Gurgel, a partir de então Zila Mamede se preocupa em reunir a poesia dela e inicia um projeto publicado em 1978 com nome de Navegos. Nesse livro, ela reúne as poesias Rosa de PedraSalinasO AradoExercício da Palavra e um inédito, chamado Corpo a Corpo.
Mais a frente, em dezembro de 1984, a poeta publica um outro livro, A Herança, no qual escreve sobre seus pais, alguns irmãos e outras pessoas queridas eleitas por ela, como Drummond. Esse livro é publicado enquanto ela trabalha no projeto da obra sobre João Cabral de Melo Neto, que só é publicado após sua morte, denominado Civil GeometriaA Herança é quase uma despedida da autora, que morreu afogada em 16 de dezembro de 1985, na praia do Meio, em Natal.

Infográfico: Jaime Azevedo
Acervo na BCZM
Fundadora do Sistema de Bibliotecas da UFRN e diretora por 21 anos da Biblioteca Central da UFRN, Zila Mamede possuía um extenso acervo com cartas, livros e fotografias. Parte desse material pode ser consultada na Sala Zila Mamede, um setor criado na BCZM em 2016 para disponibilizar consulta ao acervo da poeta.
Os documentos e livros começaram a chegar à BCZM em 1985, após a morte de Zila Mamede. A família começou a organizar o acervo da poeta, e em 1990, encaminhou parte desse material para a Biblioteca Central Zila Mamede (BCZM), que recebeu o nome da escritora no final de 1985.
“Essa coleção ficava junto aos acervos especiais, no Setor de Coleções Especiais. Em 2015, nós fizemos o projeto para criar esse espaço e em março de 2016 inauguramos uma sala para disponibilizar esse material dentro da Biblioteca”, explica a bibliotecária Tércia Marques.
A Sala Zila Mamede possui um acervo com 1.213 títulos, sendo que alguns estão ainda sendo restaurados. Dentre os manuscritos, são 1.037, desde certidão de nascimento, passando por rascunhos de livros, até cartas da poeta.
“É um rico acervo, importante para a UFRN e para todo o Estado, pelo que Zila representa. Estão disponíveis na Sala vários documentos, como cartas, certidões, registro de nascimento e fotos, tudo disponível para pesquisa”, revela a diretora da BCZM, Magnólia de Carvalho Andrade.
Sala Zila Mamede abriga o acervo pessoal da poeta. Foto: Anastácia Vaz
Depois que enviou os livros da escritora, a família começou a encaminhar também os manuscritos. “Zila se correspondia com muita gente, entre elas Carlos Drummond de Andrade. As cartas eram, na maioria delas, datilografadas. Nós temos aqui no acervo tanto as cartas que ela enviava, as cópias em carbono, como as que ela recebia”, frisa Tércia Marques.
Segundo ela, a maioria dos documentos, desde a certidão de nascimento de Zila Mamede aos relatórios de trabalho, cartas e documentos oficiais, está quase tudo catalogado. Como algumas cartas são manuscritas, houve o cuidado para fazer os resumos desse material, assim como a transcrição. O próximo passo é digitar todas elas para que facilite a pesquisa da obra de Zila.
O espaço conta também com alguns objetos usados por Zila quando era diretora da BCZM, a exemplo de agendas de trabalho, da mesa onde trabalhava e carteiras funcionais da poeta. Uma máquina de datilografar que está na sala também foi utilizada pela escritora e está exposta, assim como outros itens de seu uso pessoal.
“A ideia é que o pesquisador de Zila Mamede faça um tour ao adentrar as memórias dela aqui nesta sala. Temos os livros que ela leu, os que ela escreveu, os que já foram escritos sobre ela”, acrescenta Tércia.
A Sala fica aberta ao público, das 7h30 às 22h. Não é permitido fotografar, pois tudo está protegido pelo direito autoral, mas os visitantes podem consultar todo o material disponível no local.
Assista aqui o programa Memória Viva  da TVU com a autora, exibido em 1982.

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